O nosso próximo orador é daqueles que a JSD e eu, em
particular, tenho particular gosto em introduzir. Foi Secretário de Estado
Adjunto do Primeiro-ministro num dos mais difíceis períodos da história da
democracia portuguesa. É hoje Comissário Europeu para a investigação, ciência e
inovação.
Como hobby gosta de ler e viajar. A comida preferida é o
robalo grelhado, como nós só sabemos fazer em Portugal. O melhor é um
restaurante em que foi a primeira vez com o deputado Carlos Coelho. O animal
preferido é o Panda. O livro que sugere é "The Third Wave” de Steve Case; filme
que sugere "All About Time” e a qualidade que mais aprecia é a energia
positiva.
Convosco, Carlos Moedas.
Carlos Moedas
Muito bom dia. É difícil, de manhã, ser o primeiro; vamos
lá ver se eu consigo que toda a gente mantenha a atenção. Mas queria começar
por agradecer ao Simão Ribeiro, senhor Presidente da JSD, agradecer-lhe estar
aqui, porque é sempre um gosto estar a falar para jovens, num momento tão
difícil que atravessamos na Europa.
Depois gostava de agradecer a uma das pessoas, senão,
para mim, das pessoas que mais sabe da Europa, em Portugal, que é o Carlos
Coelho, e que está aqui hoje. Eu penso que as minhas referências sobre pessoas
que sabem, realmente, no detalhe, a Europa e aquilo que a Europa representa, só
vejo duas em Portugal: uma é o Carlos Coelho e a outra é o António Vitorino.
São pessoas que conhecem a Europa por dentro e por fora,
e por isso queria deixar aqui a homenagem ao Carlos Coelho que, para além do
amigo, é realmente um homem extraordinário. E eu testemunho a sua influência,
todos os dias, quando estou na Europa, a sua capacidade, na Europa, de
desenvolver, de falar, de levar as pessoas a conhecer a Europa no seu detalhe,
e o trabalho que ele tem feito na Universidade de Verão, na Universidade da
Europa e em tudo aquilo que tem sido o contacto com os jovens.
Aquilo que vos queria falar hoje – é um dia especial
porque ontem tivemos a nossa primeira reunião do ano do Colégio dos Comissários,
que é um bocadinho olhar para o futuro e pensar o que é que vamos fazer num
mundo cheio de crises? O que é que está a acontecer e o que é que podemos
pensar para a Europa que aí vem?
O exercício que vos propunha hoje era um exercício de
pensar, primeiro, o que é ser Europeu. Será que somos europeus, que nos
sentimos europeus? Eu sinto-me português mas também me sinto europeu. E porque
é que sentimos essa capacidade, ou não, de ser europeu? E pensei quando, na
minha vida - que deu muitas voltas – vivi durante muitos anos nos Estados
Unidos.
E ao viver nos Estados Unidos, dei-me conta de que só
tinha amigos europeus. Fossem eles do Norte, do Sul, do Este, do Oeste… E todos
nos encontrávamos porque todos tínhamos algo em comum.
E esse sentimento de ser europeu é um sentimento que
hoje, mais do que nunca, é importante. E gostava de vos perguntar, depois,
quando estivermos na nossa sessão de perguntas e respostas, qual é o vosso
sentimento. Sentem-se europeus? Sentem-se mais europeus, mais portugueses? Ou
sentem-se portugueses mas também europeus?
Eu penso que há três características, para quem, como eu,
viveu nos Estados Unidos, sentimos que há uma grande diferença entre ser
europeu. E quando pensam naquilo que é ser europeu, eu penso que os europeus
têm grandes diferenças em relação a qualquer outra parte do mundo.
E um dia, falando com Pascal Lamy, que é um homem de
grande importância na Europa, que trabalhou com o Jacques Delors, foi
Comissário Europeu, ele escreveu um livro em que dizia que os europeus tinham
três características muito diferentes.
A primeira é que temos uma grande intolerância à
desigualdade. E se repararem, para quem viaja, nós temos muito maior intolerância
à desigualdade. Quando passeamos na rua, quando olhamos para aqueles que são os
mais desfavorecidos, os europeus não gostam e não admitem essa desigualdade.
Depois, temos todos um maior equilíbrio entre aquilo que
é o indivíduo e o coletivo. Em muitas partes do mundo, as pessoas raciocinam no
individualismo puro – o que é que é bom para mim? Os europeus, de norte a sul,
de este a oeste, são diferentes. Nós temos um maior equilíbrio nesse coletivo e
no indivíduo. Pensamos no indivíduo mas também pensamos no coletivo.
E o terceiro ponto, que é de grande importância, é a
nossa capacidade, como europeus, de termos uma maior sensibilidade, uma
sensibilidade muito maior do que outras partes do mundo, àquilo que são as
políticas ambientais e as políticas ligadas ao clima.
Quando estamos noutras partes do mundo, não temos a mesma
sensibilidade. E Portugal mudou muito com isso, com a sua adesão à União
Europeia. As primeiras políticas ambientais, em relação a tudo o que é o clima,
foram e surgiram em Portugal depois da adesão à Comunidade Europeia.
Antes disso, Portugal não tinha esse sentimento, não
conseguia chegar onde chegou hoje e onde vemos hoje uma geração como a vossa,
que dá muito maior importância. E por isso a Europa, para mim, tem uma grande
vantagem; é que nós somos o único ponto no mundo que somos capazes de ter uma
visão sobre a globalização, a que alguns, como Pascal Lamy, chamaram a
globalização civilizada.
E essa tem sido a visão da Europa desde sempre. Acreditar
na globalização, porque nenhum de nós pode parar a globalização, nenhum de nós
pode dizer que agora a globalização não nos interessa, e que vamos parar a
globalização, que vamos fechar as nossas fronteiras, que não vamos ter acordos
comerciais, que não vamos vender produtos para o estrangeiro e que não vamos
comprar produtos do estrageiro.
Mas temos que ter uma civilização que seja civilizada. E
se repararem, o que é a União Europeia? O que é que a União Europeia fez de
diferente dos outros? E quando olhamos para os últimos 30 anos, vemos
exatamente isso. A União Europeia consegue, primeiro, que todos aqueles que
entram no clube, ou seja, que entram no clube europeu, comecem a ser mais
ricos. A verdade é que não há nenhum país que tenha entrado na Europa que não
tenha enriquecido e que não tenha dado condições de vida melhores à sua
população.
O segundo é que a Europa tornou-se o centro da produção
de conhecimento. A Europa são 7% da população do mundo, e produzimos mais de
30% do conhecimento do mundo. E esse é um ponto que ninguém nos tira. É um
ponto em que eu, como Comissário da Inovação e da Ciência, vejo que todos
aqueles que são investigadores, seja nos Estados Unidos, seja na China, seja no
Japão, querem participar nos programas europeus, porque são os melhores
programas de ciência e inovação.
E depois conseguimos, exatamente por esta visão
civilizada da globalização, manter uma Europa social. Manter uma Europa que
conseguiu perceber que a globalização, per si, aumenta a riqueza no global mas
não consegue proteger os mais desfavorecidos. E a Europa social, o pilar social
da Europa, é único.
Porque é que toda a gente quer vir para a Europa? Porque
é que há este afluxo de refugiados para a Europa? Porque é que todos querem vir
para aquele que é o nosso sistema, embora muitas vezes nós não demos valor ao
nosso sistema? Eles querem vir para o nosso sistema exatamente por essa visão
civilizada que temos da globalização. Que é uma visão de dizer: sim, a
globalização cria riqueza, mas a globalização não distribui bem essa riqueza. E
o ponto económico é como é que nós podemos criar riqueza e depois saber
distribuí-la de uma maneira em que não criamos desigualdades. E esse é o grande
ponto que temos à nossa frente.
Mas aquilo que nos perguntamos hoje é porque é que esta
mensagem, que me parece simples, que a Europa e todos aqueles que entraram na
Europa, convergiram e se tornaram mais ricos, que a Europa é o centro do
conhecimento no mundo, que a Europa tem medidas e políticas sociais melhores do
que todos os outros. Porque é que isso não chega? Porque é que muitos na vossa
geração não sabem o que é a Europa? Não sabem o que fazemos na Europa, não
sabem o que é a decisão da Europa e não sabem o que isso implica nas vossas
vidas. Isso temos que nos perguntar, temos que nos perguntar a nós mesmos,
porque é que aquilo que a Europa traz de bom, muitas vezes, não é reconhecido.
E, por isso, eu estar hoje aqui é de grande importância,
porque a função de um Comissário é passar esta mensagem da Europa e daquilo que
a Europa traz de bom.
Mas lembrei-me, antes de vir para aqui, gostava de vos
ler - porque eu penso que isto diz muito sobre a Europa e que vão perceber
melhor a minha mensagem -, ler-vos uma pequena mensagem quando Herman Van
Rompuy proferiu o discurso de aceitação do Prémio Nobel à União Europeia.
E vou citar. Dizia Van Rompuy: A arma secreta da União Europeia é uma fórmula sem igual para unir os
nossos interesses, de tal forma que a guerra se torna materialmente impossível,
graças a negociações constantes sobre um número cada vez maior de assuntos
entre um número cada vez maior de países. É a regra de ouro de Jean Monnet,
dizia ele em francês: "mieux vaut se disputer autour d'une table que sur un
champ de bataille." Mais vale discutir à volta da mesa que num campo de
batalha.
E acrescenta: Há
que admitir que alguns aspetos podem ser desconcertantes. Ministros de países
sem litoral a discutir apaixonadamente as quotas de pesca. Eurodeputados
escandinavos a debater os preços do azeite. A União aperfeiçoou a arte do
compromisso. Nem dramas de vitórias, nem dramas de derrotas. Apenas a garantia
de que todos os países saem vitoriosos das negociações e que, finalmente, temos
todos de pensar que, para que assim seja, esta política enfadonha é afinal um
pequeno preço a pagar.
Este é um dos pontos mais importantes que temos que
perceber sobre a Europa. É que a diversidade que nós temos, os quinhentos
milhões que somos, as vinte e quatro línguas que falamos, exigem uma cooperação
que, muitas vezes, parece enfadonha. Porque temos que estar vinte e oito à
volta da mesa. Porque a Europa são esses vinte e oito a tomar decisões. E que
esse processo de decisão obviamente que é complicado, tem que ser complicado.
Não pode haver um processo de decisão que seja simples com vinte e oito pessoas
à volta de uma mesa.
Mas quando chegamos ao resultado, esse resultado é
importante para a Europa e é importante para as vossas vidas. Mas aquilo que
aconteceu foi que, aqueles que foram os pais fundadores, aqueles que criaram a
Europa, e pensando em Schumann, em Monnet, o que eles sempre imaginaram foi que
haveria uma integração económica, uma integração geoeconómica, e portanto as
pessoas iriam viver melhor, e depois reconheciam que estavam a viver melhor, e
como viviam melhor, iriam acreditar, iriam aceitar uma maior integração
geopolítica. E era essa capacidade de crescimento económico que se traduzia
depois em integração política.
E isso foi verdade. Foi verdade durante muitos anos. Essa
integração geoeconómica aconteceu e isso levou-nos a uma integração política.
Mas temos de reconhecer que houve um momento em que já
não funcionou. E hoje vivemos um momento em que voltamos à geopolítica, ou
seja, em que a geoeconomia, que trouxe essa integração, chegou a um ponto em
que já não consegue trazer maior integração política, porque já ninguém
acredita, e porque já não há esse crescimento que houve durante esses primeiros
anos. E aquilo que vos deixava aqui como mensagem e para discutirmos depois, nas
perguntas e respostas, é pensar: mas porque é que isto aconteceu? Porquê esta
dessincronização entre a economia e a política?
E esta dessincronização entre a economia e a política é
dos problemas mais graves que temos a resolver para o nosso futuro. Porque a
economia globalizou-se, mas a política não. Ou seja, os nossos políticos, eles
não são globais, eles são locais. A política é cada vez mais local e a economia
é cada vez mais global. E essa dessincronização tem um efeito, que é que muitos
políticos prometem aquilo que não podem fazer, porque estão a prometer uma
economia que é global e portanto não têm controlo sobre essa economia global.
E a peça fundamental entre a sincronização dessa
geoeconomia e dessa geopolítica é a União Europeia. Sem isso não se consegue
coordenar.
E essa descoordenação leva-me ao meu segundo ponto, que é
pensarmos juntos entre aquilo que foi o passado, aquilo que é o presente e
aquilo que será o futuro, dentro de uma revolução a que eu chamo a revolução
digital que estamos a viver.
Mas vamos começar, primeiro, talvez um bocadinho antes de
tudo o mais, pensarmos no passado, não só da Europa, mas do mundo. Muitos –
sobretudo todos aqueles que estão aqui, que são jovens, há alguns que se
interessam pela economia – talvez tenham lido um bocadinho sobre o que era a Europa,
o que era o mundo antes de 1914. E antes de 1914, esses cinquenta anos antes de
1914, foram os anos mais abertos da economia, foram os anos mais globais da
economia mundial. Isto é quase surpreendente, pensarmos que antes de 1914 a
integração económica entre os países era muito superior, em certos aspetos,
àquilo que é hoje. Acho que isso é o mais surpreendente.
E quando olhamos para esse passado, pensamos: mas como
era essa integração? E todos estão a olhar para mim e a pensar: mas o que é que
ele está a falar?
A integração era total, antes de 1914. Era uma integração
económica que funcionava. Primeiro, havia algo a que chamávamos o padrão-ouro,
o golden standard. E o padrão-ouro
era, no fundo, uma moeda global única. Na altura só tínhamos dois países que
não tinham o padrão-ouro, que era a China e o Irão. E diziam economistas, na
altura - muitos deles escreveram -, que poderia viajar-se por todo o mundo, com
moedas de ouro no bolso e conseguir comprar, vender, em todo o lado.
As pessoas viajavam sem passaporte. Antes de 1914, os
emigrantes, quando chegavam a Ellis Island, em Nova Iorque, não tinham
passaporte, não tinham papéis. Há um economista americano de Harvard, chamado Jeffrey
Friedman, que dizia que a única que eles tinham que provar quando chegavam a
Ellis Island, como imigrantes, era provar que não eram anarquistas, que não
tinham nenhuma doença contagiosa, e que não eram loucos. Isso era um mundo
totalmente diferente daquele que vivemos hoje.
E era um mundo que estava a crescer economicamente. Só
que estava a falhar num ponto essencial. É que os políticos dessa altura,
daqueles cinquenta anos antes de 1914, esqueceram-se de um ponto essencial. Era
que… estavam tão ocupados a pensar no crescimento económico, que a integração
económica global era algo de muito positivo, que se esqueceram que essa
globalização que estavam a viver, essa primeira fase da globalização, não
estava a distribuir a riqueza por todos.
Portanto, esqueceram-se da parte social. Deixaram de
lado, não valia a pena, o mundo estava a crescer, o mundo nunca tinha crescido
tanto, as condições económicas nunca tinham sido tão boas, que a parte social
se iria resolver.
E depois esqueceram-se também de outro ponto que era tudo
o que tinha a ver com a identidade nacional.
E o que é que acontece? De um dia para o outro, em 1914,
tudo muda. E tudo muda porque a extrema-esquerda agarra tudo aquilo que eram as
políticas sociais, e o facto de que ninguém estava a ter qualquer tipo de
política social, e que a desigualdade era cada vez maior. E a extrema-direita
ataca naquilo que era a identidade nacional.
E esse mundo aberto de 1914, acaba. Primeira Guerra
Mundial, o que é que acontece? Todos os políticos criam políticas
protecionistas, de fechar os países, de fechar cada vez mais o comércio entre
os países, de exigir cada vez mais que cada um ficasse no seu canto.
Segunda Guerra Mundial, mais protecionismo, mais
populismo, mais extremismo, e o mundo fecha-se. O comércio mundial cai, a
pobreza instala-se e os populistas conseguem levar a sua avante durante tantos
anos de horror na Europa. E o mundo só volta a recuperar, lentamente, a partir
da Segunda Guerra Mundial. Mas o que é extraordinário é ver que, mesmo hoje,
quando olhamos alguns desses parâmetros, daquilo que era a abertura do mundo
antes de 1914, e hoje, o mundo ainda não é tão aberto como foi antes, nesses
cinquenta anos antes de 1914.
Por isso, o que acontece a seguir à Segunda Guerra
Mundial é a saída, lenta, mas em crescendo, dessa fase de protecionismo para
uma fase de abertura. E o mundo abre-se, abre-se novamente durante esses anos,
e os Estados Unidos e a Europa tornam-se o centro do mundo. E tornam-se o
centro do mundo porquê? Eu hoje vejo muitos políticos populistas a dizer que
são contra os tratados comerciais no mundo. Vejo isso em países como a
Alemanha; vejo isso em países como a França.
E eu não percebo como é que é possível, hoje, alguém
dizer ou afirmar que ter tratados comerciais, sejam eles com os Estados Unidos,
com o Canadá, com outras partes do mundo, é negativo para o mundo. É estar a
enganar as pessoas. O mundo só pode crescer se nós criarmos maiores laços
comerciais. Isso é que faz crescer.
Aquilo que são hoje as exportações. A Europa é o maior
exportador do mundo. Exportámos para os Estados Unidos, há um ano atrás,
trezentos mil milhões de euros. E importámos dos Estados Unidos duzentos mil
milhões de euros. E como é que alguém pode dizer que não é importante termos um
tratado comercial entre os Estados Unidos e a Europa. Eu, sinceramente, não
percebo.
Um em cada sete empregados, uma em cada sete pessoas que
estão a trabalhar, hoje, dependem de termos essa abertura comercial. E então
criou-se na Europa, no fundo, algo de ideológico, em que de repente os
populistas acreditaram que não valia a pena termos mais tratados comerciais.
Aquilo que valia a pena era fechar a Europa.
Portanto, hoje a guerra política que temos na Europa não
é de esquerda ou de direita. É uma guerra daqueles que querem fechar a Europa
com aqueles que querem abrir a Europa. E aqueles que querem fechar a Europa
estão convencidos que vão mudar a vida daqueles que têm hoje mais dificuldades,
quando a única coisa que vão fazer é prejudicar a vida desses que hoje têm
dificuldades. Porque nenhum país, através da capacidade de se fechar, tem tido melhores
condições de vida.
Mas a Europa, nesse crescimento a seguir à Segunda Guerra
Mundial, para mim fez um erro. Quando não se deu conta que estávamos a
atravessar uma nova vaga, uma nova vaga de uma revolução a que eu chamo a
revolução digital e que começa mais ou menos em 1940, com a invenção do
transístor.
O transístor é um bocadinho como que, eu diria, a máquina
a vapor da revolução digital, que veio mudar totalmente o mundo. E nós não nos
apercebemos do que estava a acontecer. E a prova disso é que, quando olhamos
para trás, e olhamos há trinta anos, em 1980, a Europa representava 30% do que
era a riqueza do mundo. Hoje, representa 20%. E a China, que representava 2% do
que era a riqueza do mundo, hoje representa 18% daquilo que é a riqueza do
mundo.
Mas depois, mais grave do que isso, é olharmos para o
futuro e pensarmos: o que vai ser o futuro? E o ex-primeiro-ministro italiano,
Enrico Letta, olhou e fez uns cálculos e, no outro dia, apresentou numa
conferência o que seria a Europa nos próximos trinta anos. E chegou à conclusão
de que a Europa, nos próximos trinta anos, não vai ter um único país no G7. Ou
seja, nos sete maiores países do mundo não vai haver um único país da Europa.
A Alemanha vai estar mais ou menos em nona posição,
quando olhamos para esse futuro. A França - não se se deram conta, aqueles que
vão lendo as notícias internacionais -, há pouco tempo a economia da França foi
ultrapassada pela economia da Califórnia. A economia da Califórnia é maior do
que a economia de França.
E então Enrico Letta dizia, com piada, que na Europa só
há dois tipos de países – aqueles que são pequenos e aqueles que ainda não
perceberam que são pequenos. E o não terem percebido que são pequenos é o que
pode leva-nos a olhar para a Europa e pensar: o que é que nós estamos aqui hoje
a dizer, queremos uma Europa… o que é que os populistas estão a dizer? Queremos
uma Europa que não seja grande? É que o jogo que estamos aqui a falar, mundial,
é um jogo de elefantes. Depois podemos concordar e podemos discordar com
determinados aspetos da globalização.
Mas a globalização é um bocadinho como um rio em que se
quer pôr um dedo e parar. Ninguém vai parar a globalização. Nós temos que lutar
nesse jogo da globalização com dimensão. E essa dimensão só pode ser feita se
nós estivermos todos juntos – os pequenos e aqueles que ainda não perceberam
que são pequenos.
E quando olhamos para os últimos dez anos, são esses últimos
dez anos que me preocupam. Porque eles trazem-nos muitas lições. Primeiro,
porque a Europa conseguiu viver das crises mais violentas desde a segunda
guerra mundial. E essas crises mais violentas, muitas vezes, muitos de nós não
olhamos para elas com atenção. Estou a falar da crise do euro, da crise dos
refugiados, nem sequer estou a falar do terrorismo nem estou a falar agora do
Brexit.
Mas vamos olhar para a crise do euro e pensar no que é
que aconteceu na crise do euro, entre 2008 e 2012. A Europa teve uma crise que,
felizmente, conseguiu ultrapassar criando novos instrumentos. Mas, quanto tempo
demorou a ultrapassar essa crise? Quatro anos, para criar todos esses
instrumentos. E sabem qual era a discussão, ou porque é que isso não foi feito?
Nos Estados Unidos, a mesma crise, demorou menos de um ano a resolver.
Qual foi o facto que levou a isso? O facto que leva a que
essa crise não seja resolvida mais rapidamente, foi simples. Foi que passámos
quatro anos a dizer: mas isto é responsabilidade nacional, ou é
responsabilidade da Europa? Quem é que deve atuar? Os Estados Membros ou a
Europa? E a bola passava de um lado para o outro, passava de um lado para o
outro, até se conseguir chegar a um consenso. E demorou-se quatro anos para
chegar a esse consenso.
Portanto, é preciso perceber estes detalhes de como é que
a Europa consegue, ou não, avançar para o futuro. Olhar para o seu futuro e ver
como é que pode fazer, olhá-lo de uma maneira diferente para aprender com as
lições do passado.
E é essa mudança que tivermos, essa capacidade ou não de
mudarmos para o futuro, de conseguir ter decisões mais rápidas, que nos vai ou
não deixar à frente dos outros. E porquê? Porque nós vivemos num mundo em que a
revolução digital é automática, é instantânea, e o poder político é lento. E
essa dessincronização de que falei ao princípio, este é o melhor exemplo dessa
dessincronização.
É que os produtos, hoje, as empresas, os empresários,
criam produtos de um dia para o outro, e a Europa demora anos, os países demoram
anos a legislar. Demoram quatro/cinco anos a legislar. E quando acabam de
legislar sobre um determinado produto, ou sobre um determinado regulamento ou
sobre um determinado aspeto, muitas vezes esse produto já não existe, porque o
mundo já mudou, e torna-se totalmente obsoleto.
Então vamos analisar mais em detalhe o que é que foi esta
revolução digital e o que é que esta revolução digital mudou. Eu gosto sempre
de contar, e penso que para aqueles que estão aqui presentes é interessante, o
começo desta revolução digital e o que é que ela mudou nas nossas noções
políticas e nas nossas noções de fronteiras físicas que hoje já não existem.
Há uns anos, Mario Draghi, numa grande conferência nos
Estados Unidos falava sobre o conceito de soberania. E sobre o conceito do que
é a soberania e o que não é a soberania. Porque, no fundo, os políticos passam
a sua vida a discutir o que é a soberania e o que não é a soberania. E ele
dizia que havia duas maneiras de olhar para a soberania. Uma, muito mais
normativa, que é aquela que todos que são estudantes de economia ou direito
sabem, de Jean Bodin, de 1500, que dizia, no fundo, que a soberania é o direito
de declarar a guerra, de emitir moeda, de cobrar impostos.
Mas será que hoje esse é o verdadeiro conceito de
soberania? Será que um país que não consegue fornecer aos cidadãos educação,
saúde, que não tenha dinheiro para pagar aos seus funcionários públicos, é soberano?
Eu tenho dúvidas. Acho que há uma visão muito mais positiva da soberania, que é
a visão que nos traz a revolução digital, que é a capacidade ou não de ter e de
fornecer aos cidadãos aqueles que são os serviços básicos. Um país só é
soberano se conseguir pagar aos seus funcionários públicos. Ter educação,
saúde, justiça, segurança para os seus cidadãos – isso é que é ser soberano.
Portanto, neste mundo em que vivemos, essa soberania só a
podemos ter se a partilharmos. Ou seja, nós não conseguimos ter essa soberania
se não partilharmos essa soberania. E esta soberania já não depende da
geografia, já não depende das fronteiras. As fronteiras são físicas, a nossa
vida, essa capacidade de fornecer aos cidadãos aquilo que eles precisam, tem a
ver com a nossa capacidade de estar conectados com aquilo a que chamamos a
conectividade.
E quando olhamos para a conectividade, hoje, há um grande
pensador, o Parag Khanna, que diz que a conectividade, mais do que a soberania,
é hoje o novo princípio organizativo da espécie humana. Napoleão dizia ao
contrário, dizia que a geografia era o destino.
Hoje, felizmente, isso não é verdade. Cada um daqueles
que estão aqui hoje, podem fazer empresas, podem criar empresas que estão em
Portugal mas estão a trabalhar para todo o mundo. A Farfetch nasceu em
Guimarães, a Zara nasceu em Arteijo, uma vila na Galiza, em Espanha, com trinta
mil habitantes. E, portanto, o mundo mudou radicalmente. De um mundo em que se
falava de soberania, de fronteiras físicas, para um mundo em que a
conectividade é o essencial. Se não estivermos conectados não existimos.
E temos, no fundo, hoje, a prova disso. O que são as
fronteiras físicas, hoje, alguém tem uma ideia? O que são as fronteiras físicas
que temos hoje no mundo? Quinhentos mil quilómetros, menos de quinhentos mil
quilómetros de fronteiras físicas. Temos mais de um milhão de quilómetros de
cabos de internet no mundo. E são esses cabos que definem e que vão definir as
fronteiras do futuro.
Os franceses traduziram digital por "numérique” - e eu
tenho uma costela francófona – e acho muito mais interessante, e acho que os
portugueses acabaram por ficar com a palavra em inglês, e muitas vezes, falando
com estudantes, as pessoas não se dão bem a noção do que quer dizer digital.
Digital quer dizer numérico, quer dizer 0 ou 1.
E esse princípio do 0 e 1, o princípio de que podemos
digitalizar tudo, foi essa grande revolução que começa em 1940 nos Estados
Unidos, com a criação do transístor. Mas a criação do transístor trazia uma
grande lição, trazia uma primeira lição. E eu queria-vos deixar aqui três
grandes lições da economia digital.
A primeira que trazia, essa criação do transístor, é que
o transístor foi criado num laboratório, num momento em que pessoas de várias
disciplinas se juntaram para criar esse transístor. Até aí, as invenções, as
inovações eram feitas no centro de uma disciplina. Eram feitas por uma só
pessoa, numa só universidade, num só sítio.
E o transístor precisava de pessoas que soubessem de
química, que soubessem de física, mas também pessoas que soubessem aquilo a que
os americanos chamam tinkering , que
sabiam trabalhar com as mãos. Porque era preciso, num espaço muito pequeno,
conseguir colocar aqueles fios, aqueles princípios físicos, químicos, para
conseguir ter o transístor.
E isso veio transformar o mundo na inovação. Veio dizer
que a inovação e a invenção já não vinham só de um campo. Aliás, a história
mais interessante que gosto de contar sobre isso tem que ver com algo muito
recente.
Todos conhecem a teoria da relatividade, e Einstein,
quando fez essa teoria da relatividade, fez a teoria da relatividade sozinho.
Aliás, ele escreve em 1905, entre 1905 e 1915, mais de dez artigos científicos
sozinho, em que mudou o mundo, sozinho. Há um ano atrás, conseguiu-se provar
que muitas das teorias de Einstein estavam exatas e eram corretas, através da experiência
que todos ouviram falar das ondas gravitacionais. O Einstein dizia que havia
uma noção de espaço/tempo em que havia uma deformação que era feita nas ondas e
que havia como que uns altos e baixos nessas ondas – mas nunca ninguém tinha
conseguido provar. Essa capacidade de provar que Einstein tinha razão foi um
artigo que foi assinado por mil cientistas de países diferentes. E de áreas
muito diferentes, nem todos eles eram físicos – eram químicos, eram biólogos,
eram pessoas de vários campos que conseguiram trazer essa reflexão e que
conseguiram provar que Einstein estava correcto.
E isso mostra que, hoje em dia, mais do que tudo - e
sobretudo na educação, portanto naquilo que hoje estão aqui a fazer e que vai
ser o seu futuro –, vocês não se agarrem a estar a estudar só na vossa área.
Não se agarrem a pensar que querem ser só advogados, ou querem ser arquitetos,
ou querem ser engenheiros. Vão ter que ser de tudo um pouco. E aqueles que
conseguirem passar mais rapidamente de uma disciplina à outra – escrevam o que
vos digo – são aqueles que vão ter maior sucesso. Aqueles que souberem ir da
arte para a ciência, aqueles que souberem um bocadinho de direito mas também
sabem de economia, aqueles que sabem um bocadinho de física, mas também sabem
de química e de biologia. Esses são aqueles que vão ser os vencedores do
futuro.
E aquilo que eu gosto de estar aqui hoje convosco é que
mostra que, naquilo que fazem e naquilo que é o vosso futuro, já decidiram que
não querem estar só na vossa disciplina. Gostam de política – vieram aprender
sobre política. Vieram aprender como é que se faz política, o que é a política,
o que é que os políticos fazem. E, mais do que nunca, precisamos de pessoas
como aquelas que estão aqui hoje.
Essa colaboração nas interseções, ela vai ser essencial
para o futuro do mundo. Aliás, ela já é essencial hoje no futuro. Há uns tempos
atrás, visitei em Israel um centro chamado Weizmann Institute, que é um dos
maiores centros científicos do mundo, onde temos mais de cem bolseiros europeus.
E encontrei um homem, que era um biólogo, que estudou toda a sua vida
clorofila. E descobriu uma das curas para o cancro da próstata. Ou seja, um
biólogo a estudar clorofila descobre uma cura para o cancro da próstata. E isto
mostra que é esse o futuro. O futuro é estar entre estas diferentes redes de
saber.
Depois, o segundo ponto é que, durante muitos anos, antes
da revolução digital, como é que acontecia a inovação? A inovação acontecia de
uma maneira muito simples. A inovação acontecia… chegava-se a uma empresa, o
chefe da empresa dizia: vamos inovar. Encontrava quatro ou cinco, criava uma
unidade de inovação e depois dizia vamos encontrar um novo produto. Essas
pessoas inventavam um novo e depois empurravam esse produto para as pessoas.
Punham à venda e depois quem gostasse, gostava, e quem não gostasse não
comprava.
O mundo digital veio trazer algo totalmente diferente,
porque, no mundo digital, o contacto entre o consumidor e o produtor é
imediato. E aquilo que nós vemos hoje é que são os próprios consumidores, sãos
os próprios utilizadores que estão a definir aquilo que é inovação, que estão a
definir o que é que são os produtos do futuro. Ou seja, o produto já não é
definido na empresa, ele é definido através daquele que é o utilizador. E essa
diferença é de tal ordem forte que aquilo que nós vemos hoje é exatamente, em
todas as disciplinas, essa mudança radical.
Há um ano atrás entreguei um prémio que se chamava "O
prémio do paciente inovador”. Ou seja, na saúde, o utilizador é o paciente. E
entreguei esse prémio, em Lisboa, a um homem extraordinário. A um inglês que,
quando tinha trinta anos, era engenheiro mecânico, o médico disse-lhe que ele
estava a seis meses, basicamente, da morte. Porque tinha um síndroma, a que se
chama síndroma de Marfan, que tinha uma veia, a veia aorta, que estava
completamente destruída e que iria rebentar nos próximos seis meses.
E ele chegou a casa e pensou "não posso morrer daqui seis
meses. Eu acho que isto é uma coisa que vou ter que descobrir”. O médico disse
que não havia cura, não havia capacidade de fazer absolutamente nada. Então
este homem, chamado Tal Golesworthy, que é um britânico, contacta uma série de
amigos engenheiros e decidem tentar perceber o que podiam fazer para resolver
um problema que não era só médico. Primeiro era um problema dele; e depois era
um problema também de engenharia. E constroem uma válvula artificial que
consegue, hoje, salvar a vida a centenas de pessoas. Aliás, eles tinham um
número: já salvaram a vida a mais de duzentas pessoas.
Através do quê? De uma colaboração entre um engenheiro
mecânico e um médico. E através do quê? Através de um utilizador que vai
resolver o problema daquele que é o fornecedor, ou que é o produtor, no caso da
saúde, o médico.
E essa mudança é uma mudança que nós vemos em tudo aquilo
que estamos a fazer hoje. Estamos a fazer hoje e estamos a ver essa mudança
constante de ser o utilizador que está realmente a mudar aquilo que é o futuro.
Quando vocês estão na vossa casa, que estão a mudar e estão a construir os
vossos apps no computador, que estão a fazer youtube, estão a mudar a maneira
como o mundo está a funcionar.
E a Europa tem que agarrar essa oportunidade. E essa
oportunidade é de tal ordem grande que me leva a este terceiro ponto da
revolução digital que gostava de deixar aqui hoje para discussão. O primeiro é
o utilizador ao centro, o segundo é esta colaboração nas interseções, mas o
terceiro é o big data.
Tudo e toda esta revolução digital está baseada numa
quantidade enorme de informação com que hoje vivemos. E quando olhamos para
aquilo que vai ser o que chamamos a internet das coisas, que eu diria que é a
internet de tudo, ou seja, a internet de estarmos conectados diretamente, vamos
descobrir que o mundo vai mudar. Que as profissões já estão a mudar e que nós
ainda não nos apercebermos; não só pelas interseções, não só pelo utilizador
estar ao centro, mas também porque a quantidade de informação nos levará a
resultados muito melhores. Só que estamos no princípio.
90% de toda a informação criada no mundo, foi criada nos
últimos dois anos. Se vocês olhassem para o bolo da informação, o que nós
chamamos o data , 90% disso foi criado
nos últimos dois anos. E será a capacidade de pôr esta informação conectada, a
comunicar e a tomar decisões que vai fazer essa diferença. Até agora eramos nós
que tomávamos as decisões. Agora vai ser como é que estes dados que comunicam
entre si que tomam estas decisões. Há pouco tempo fez-se uma experiência interessante
nos Estados Unidos que era pôr num centro os maiores médicos especialistas em
cancro do pulmão e, através de radiografias e de scanners, detetarem cancro do
pulmão em determinados doentes. Fizeram duzentas, ou um número grande, de
radiografias. E esses médicos, basicamente, olharam para tudo. E depois pôs-se
a máquina. Pôs-se a máquina naquilo que hoje chamamos o deep learning , que é pôr todos estes dados conectados, todos estes
dados a funcionar.
Os médicos falharam em 7% dos casos e a máquina não
falhou. Portanto, o ponto aqui é como é que vai ser esta relação entre a
máquina e o homem. E como é que nós vamos conseguir criar esses novos empregos
do futuro e como é que vamos conseguir criar essas profissões do futuro. E
essas profissões do futuro vão ser muito diferentes do passado. Porque o que
importa no futuro, quando olharem… vocês hoje quando olham para a informação, o
que é que é importante hoje na informação? É saberem a informação? Ainda
estamos no método em que vamos para a escola e sabemos de cor e depois chegamos
ao exame e temos que dizer tudo de cor? Será que isso hoje importa? Não, isso é
o século passado.
O ponto é como é que nós relacionamos essa informação e
como é que fazemos a ligação entre essa informação. E o big data vai ser essa ligação entre a informação. E essa ligação
entre a informação vai-nos dar os resultados que vão ser muito diferentes do
passado. Mas a boa notícia, é que ao contrário do que muitos pensam, e talvez
agora alguns que me estão a ouvir estão a pensar: então no futuro o que é que
vai ser o ser humano? O ser humano não vai ser nada.
Ao contrário. O ser humano vai ser cada vez mais
importante. Mas ele vai ser mais importante não por aquilo que sabe, mas por
conseguir ter essa capacidade de ligação da informação. E é por isso que hoje
aquilo que nós vemos é que a informação, aquilo que vai ser toda esta parte do data , vai ser um commodity , porque tudo já vai estar digitalizado. Nós demorámos dez
anos, quinze anos a digitalizar o mundo. Aliás, o facto de 90% de tudo o que é
informação já estar digitalizada mostra isso.
A questão agora vai ser: mas o que é que o ser humano vai
fazer? O ser humano vai ter essa capacidade de ser mais do que a máquina,
sempre. Através do quê? Através da experiência. Através do contacto humano,
através das redes que cria. Através dessa experiência humana.
Porque essa experiência humana, ela nunca será
substituível. Nós nunca vamos conseguir construir um mundo em que vamos
conseguir substituir essa experiência. E por isso quando eu comecei, quando eu
há muitos anos atrás fui fazer o programa Erasmus… e ontem falávamos no Colégio
de Comissários o que é que temos de fazer pela Europa, e eu contava e dizia
que, muitas vezes, nós fazemos projetos na Europa que os Europeus muitas vezes
não sabem o que são. Nem sabem o que estamos a fazer. E porquê? Porque não lhes
toca diretamente.
Das minhas recordações de há muitos anos, a única coisa
que eu guardo é uma fotografia que eu tenho, em que estou eu com um cheque de
dezasseis mil francos franceses – que seriam, hoje, dois mil euros, ou uma
coisa assim – para eu viver durante um ano em França. E essa recordação daquilo
que a Europa tinha feito por mim, esse cheque que me ia ajudar a viver, mal,
porque não se conseguia viver com tão pouco, já naquela altura, durante um ano.
Era só pagar o quarto, e pagar as despesas e poder sair um bocadinho e ir
almoçar, não dava. É com esse tipo de projetos que eu acho que o mundo digital
nos vai ajudar a fazer essa ligação entre a Europa e as pessoas.
Por isso, gostava de acabar aqui esta primeira parte,
antes de chegarmos às perguntas, a dizer-vos que o maior perigo que vivemos hoje
é não percebermos que esta revolução digital só pode ser feita com abertura, só
pode ser feita naqueles que acreditam que o mundo deve ser aberto, e que o
mundo não deve ser fechado, e que o mundo aberto é aquele que nos trará esses
resultados.
Um presidente francês, o François Mitterrand, dizia que o
nacionalismo é a guerra. E eu diria que o protecionismo e o isolacionismo são,
sem dúvida, aquilo que será o pior para um potencial conflito entre todos nós
para o futuro. Não nos podemos deixar levar… E a Europa vive um momento
difícil, um momento em que muitos não acreditam que é essa abertura que nos
trará o futuro e não fecharmos a Europa.
Os extremistas, os populistas, o que eles no fundo
querem, querem solidariedade mas depois não querem responsabilidade. E abominam
esta ideia da conectividade, porque ela traz maior liberdade individual. Porque
com este mundo digital, todos aqueles que estão aqui hoje, podem estar hoje
aqui, mas podem estar a fazer uma empresa que está a vender produtos nos
Estados Unidos, estar a vender produtos noutras partes do mundo.
No fundo, aquilo por que nós temos que lutar, e aquilo
que eu vos deixo por mensagem, não é mais do que lutem por essa Europa aberta.
Porque sem essa Europa aberta não teremos futuros.
O Alberto Alesina, num livro chamado "O Futuro da
Europa”, dizia neste livro – eu gostava só de terminar com este ponto e depois
passamos às perguntas e respostas –, dizia: os políticos, porém, em vez de
trabalharem juntos para resolver estes problemas, tranquilizam os eleitores
prometendo proteção. Proteção contra as importações asiáticas, proteção contra
a diversidade cultural que vem com a imigração, proteção contra a tecnologia. A
palavra proteção – dizia ele - pode ter uma conotação positiva. Proteção dos
mais fracos, proteção contra a agressão, proteção contra a adversidade. Mas o
tipo de proteção a que nos referimos é de natureza diferente - é a proteção dos
que estão dentro do sistema, dos que estão bem relacionados, à custa daqueles
que beneficiariam com mais concorrência. É a proteção dos poucos contra os
interesses dos muitos.
A Europa com que queremos sonhar é exatamente o contrário.
É uma Europa de solidariedade, de conectividade, que liga este mundo físico ao
mundo digital. É uma Europa que defende o interesse dos muitos, daquela que é a
maioria invisível, daqueles que são os que estão sentados aqui hoje, contra os
interesses daqueles que se aproveitam do sistema.
Muito obrigado.
[Aplausos]
Simão Ribeiro
Muito obrigado, Eng.º Carlos Moedas. Primeira pergunta do
dia, Tiago Lucas, Grupo Rosa.
Tiago Lucas
Bom dia a todos. Os meus cumprimentos, em nome do Grupo
Rosa, ao senhor engenheiro pela presença, ao nosso Comissário que tão bem nos
representa dentro da Comissão.
Há uns tempos atrás, Martin Schulz, numa entrevista,
dizia que a Europa é uma bicicleta com os pneus furados. Dias depois, após o
Brexit, dizia que está na altura de começarmos a pensar na reforma da União
Europeia e que alguma coisa tem que mudar. Eu concordo com Martin Schulz.
Martin Schulz também, depois de ter dito isso, mais à
frente, apresentou uma pequena proposta que passava, no fundo, por uma espécie
de governo europeu eleito pelos Estados-Membros. Tivemos essa proposta, depois
tivemos outra do representante dos Liberais e Democratas, do grupo parlamentar
europeu, uma série de propostas que eles considerariam importantes para a
reforma da UE.
Nesta linha, e neste comboio de falar da reforma da UE, e
de achar que alguma coisa de facto tem de mudar, o Grupo Rosa coloca a questão de
quais são as prioridades ou qual é o plano para a reforma da UE?
Na questão do TTIP que falou, e muito bem, de facto é
necessário e faz todo o sentido falar nesta aliança entre a Europa e a América.
É de facto um caminho para o futuro da inovação, tecnologia, do digital, que é
o tópico que nos traz aqui. Nós sabemos, e ficamos a saber por estes dias, que
a França vai retirar o apoio, ou está a retirar o apoio ao TTIP dentro da
União.
E a pergunta que nós deixamos é: qual é o futuro para
este acordo? Será que vamos ter TTIP? Será que, de facto, é possível ambicionar
com este tratado que, de facto, tem um conjunto de vantagens enormes, vantagens
essas que não foram projetadas para a opinião pública, tivemos muita
desinformação, muito lixo informativo à volta do TTIP.
E um último tópico para aquilo que pode ser o futuro também
da UE. A crise dos refugiados é provavelmente um dos tópicos mais críticos da
ordem do dia. Nós hoje temos um momento crítico da União Europeia, tal como
tivemos em 2010 com a questão da crise das dívidas soberanas. E nessa altura
nós ficamos a saber das fragilidades da União. Será que o momento dos
refugiados, aliás, a questão da crise dos refugiados, será provavelmente um
momento de reforço da União? Ou um momento de ultrapassar aquilo que são as
fragilidades desta União?
Obrigado.
Carlos Moedas
Muito bem, muitas perguntas, vou tentar não ultrapassar
três minutos, como disse ali o senhor eurodeputado.
Talvez começar aqui pelo ponto do TTIP. O ponto do TTIP,
que é um ponto muito importante para todos nós. Fez um comentário sobre aquilo
que foi dito, não só em França mas também na Alemanha. Agora, temos que ser
claros sobre quais são os poderes e o mandato que temos. A Comissão Europeia
tem um mandato de todos os Chefes de Estado e de Governo para negociar o TTIP.
Esse mandato foi feito por unanimidade. Portanto, se os países querem retirar
esse mandato, também o têm que fazer por unanimidade.
E a Europa não é só França, não é só Alemanha, não são só
determinadas visões dos países mais centrais ou maiores. São importantes mas
não são tudo. Aquilo que estamos a fazer neste momento é continuar. Continuar
com as negociações, continuar com negociações que são muito duras. Porque são
negociações, exatamente, para conseguir ter a mesma, eu diria, os mesmos
standards, a mesma qualidade, nesta negociação entre a Europa e os Estados
Unidos.
Ao contrário do que muitos dizem sobre o TTIP e sobre o
Tratado Comercial, que vai diminuir aquilo que são os nossos regulamentos, a
nossa capacidade… Não, não é absolutamente nada disso. É exatamente o
contrário. Tem sido essa a negociação; é encontrar um tratado equilibrado. E
esse tratado é importantíssimo para o nosso futuro. E é importantíssimo do
ponto de vista de que o que a Europa mais precisa é de capacidade de
exportação, é de exportar mais. Os empregos ligados à exportação, todos
sabemos, são mais bem pagos, têm melhores condições. Portanto, é importante
continuar.
Ontem, no Colégio de Comissários, falámos exatamente
sobre essa vontade, e essa continuação, e essa energia que vamos ter de
continuar naquilo que é o TTIP. Obviamente que os países podem falar. Não
ajuda, não ajuda, no meio das negociações haver barulho e haver países que
dizem isto ou aquilo porque isto é uma missão e é um mandato que foi dado a uma
Comissária em particular. Eu diria que é, de certa forma, teatro político, mas
não muda nada daquilo que está a acontecer. O futuro depois veremos, mas é
importante continuar. Temos o tratado com o Canadá, que é um tratado
importantíssimo, e que é um tratado que é o melhor tratado que podíamos ter de
comércio, entre a Europa e o Canadá. E depois o TTIP, e portanto vamos
continuar nesse ponto.
Depois o segundo sobre os refugiados. Eu acho que os
refugiados são um excelente exemplo daquilo que estávamos a falar sobre a
solidariedade. Porque, muitas vezes, não nos damos conta quando vemos que um
país como a Alemanha recebeu um milhão de refugiados. Nós temos que ajudar a resolver
esse problema e temos que o fazer de forma solidária. Mas depois, quando a
Europa o tenta fazer de forma solidária, cada país diz: não, eu não quero, eu
quero isto, não pode ser… E não há realmente essa capacidade de ter uma visão
solidária sobre esse tema.
Hoje vivemos num mundo em que há sessenta milhões de
pessoas que estão no mundo à deriva, de um país para o outro, que não têm condições.
E os refugiados não é uma questão de termos ou querermos ser solidários. Nós
temos que ser solidários. Porque a História traz-nos exatamente a prova de que,
quando não fomos solidários, os erros que cometemos.
Na Segunda Guerra Mundial, os países da Europa, e dos
Estados Unidos e de outras partes do mundo não foram capazes de ter essa
solidariedade. E não podemos cometer esse erro porque esse erro levou a milhões
e milhões de mortes. Portanto, temos que ser solidários e temos que arranjar
essa solução. E uma Europa de quinhentos milhões tem que arranjar essa solução.
Estamos a falar de, obviamente, um grande número, mas é um número em que a
Europa tem que conseguir essa solução.
E depois sobre o que são os grandes temas para o futuro
da Europa. Eu acho que o grande tema para o futuro da Europa é conseguirmos
manter-nos unidos num período difícil e conseguirmos adaptar-nos a esse futuro
através de um pilar de solidariedade, em que vamos ter cada vez mais a
necessidade de mostrar que sem essa solidariedade não conseguimos. E essa
solidariedade não é só nos refugiados, é também, por exemplo, nas contas
públicas. Quando um país não respeita as contas públicas, cria externalidades
negativas a outro país que as cumpre. Ou seja, temos que cumprir, temos que nos
habituar a cumprir, para pertencer ao clube e para podermos ter a solidariedade
dos outros.
Portanto, essa parte da solidariedade, eu diria que é o
pilar em que nos devemos focalizar ao nível político. E o segundo pilar foi
este que aqui vos deixo hoje, que é o pilar da conectividade, o pilar do
digital, da inovação na era digital, que é essencial para o nosso futuro. Sem
isso, sem termos esse pilar da conectividade, sem, por exemplo, não termos que
ir para um país, e olhamos para a internet e ficamos bloqueados porque não
podemos ver um filme que víamos noutro país da Europa, não faz sentido nenhum.
Não termos acesso à informação nos países da Europa da mesma maneira que temos
em todos os países, não faz sentido. Temos que ter essa capacidade de olhar e
de apostar nessa Europa digital, que é uma das grandes prioridades do
presidente Juncker, que é esta Europa digital única em que trabalhamos.
Simão Ribeiro
Muito obrigado. João Vieira, Grupo Verde.
João Vieira
Olá, bom dia. A nossa pergunta é: a Europa vai ser
ultrapassada no G7 daqui a trinta anos, por que razão? E quais são os fatores
que influenciam esta situação?
Obrigado.
Carlos Moedas
Aquilo que nós vemos é que as outras partes do mundo
estão, por um lado, a crescer com maior rapidez, a criar riqueza, apesar de
virem de níveis mais baixos. Quando falamos da China ou doutras partes do
mundo, eles vêm de um patamar mais baixo mas estão a crescer a uma velocidade
maior. E essa velocidade maior, na economia, é como se nós estivéssemos todos a
correr numa pista, e a nossa capacidade é de correr sempre um bocadinho mais
rápido do que os outros. Aqueles que vêm de um patamar mais baixo, eles até
podem correr mais rápido, mas não os podemos deixar ultrapassar aquilo que é a
nossa velocidade de cruzeiro.
E o que está a acontecer é que a Europa está a reduzir o
seu crescimento, e portanto estamos a tentar agora voltar a uma fase de
crescimento. Os números vão mostrando que sim, que estamos melhor, mas
continuamos com crescimentos abaixo dos dois por cento. Esses países estão com
crescimentos a cinco, a sete, a oito, a dez por cento. Portanto, a uma dada
altura vamos ser ultrapassados, se nada fizermos.
A mensagem que eu deixo é: sim, se nada fizermos, vamos
ser ultrapassados. E essa nossa capacidade de, por exemplo, aproveitar a
revolução digital para ultrapassar os outros, é única. Porque nós temos tudo,
nós temos o conhecimento, temos as empresas, temos os jovens que hoje têm um
nível de educação superior a outras partes do mundo, que nos podem fazer voltar
a acelerar esse crescimento e aí não seremos ultrapassados. E aí, o exemplo que
eu estava a dar, dentro de trinta anos estaria errado, se nós, através da
revolução digital, conseguíssemos patamares de crescimento superiores àqueles
que temos hoje. Mas se continuarmos a criar barreiras, a fechar fronteiras, a
criar todo este protecionismo em que estamos a viver hoje, de certeza que não
vamos conseguir acelerar o crescimento.
Duarte Marques
Muito obrigado, senhor Comissário. Dava a palavra ao Hugo
Martins, do Grupo Cinzento.
Hugo Martins
Bom dia a todos. Gostaria, antes de mais, de agradecer a
sua presença e podermos privar com você e toda a sua experiência que nos pode
transmitir.
Efetivamente, hoje em dia vivemos na era digital. Esta
revolução, que se encontra em curso, fez acelerar o ritmo de vida, a facilidade
de circulação da informação, bem como muitas outras vantagens. No entanto, uma
questão que nos preocupa enquanto cidadãos é que, quanto maior for a presença
das chamadas tecnologias da informação no nosso quotidiano, maior será a
exposição às gigantes tecnológicas.
A questão propriamente dita é a seguinte: isto não terá
consequências na diminuição da nossa privacidade, na nossa liberdade pessoal,
em termos de controlo do quotidiano?
Obrigado.
Carlos Moedas
São várias perguntas interessantes. A primeira, na
questão da privacidade. Nós ainda estamos muito no princípio desta revolução
digital. Portanto, nós ainda estamos num ponto em que nós não sabemos bem o que
vai ser esta revolução digital, e portanto não estamos ainda protegidos de uma
forma em que deveríamos, em termos de ciber
security , em termos da nossa proteção dos dados, em termos da nossa
privacidade.
E isso vai ter que se construir, mas vai ter que se
construir de uma maneira em que não se prejudique o crescimento dessas
tecnologias. Ou seja, nós temos que criar legislação – o que estamos a fazer
dentro deste projeto do mercado digital – que consiga, por um lado, deixar que
a inovação crie novos produtos, mas, por outro lado, não travar esse
crescimento através de, por exemplo, leis que não façam sentido.
Há muito anos atrás, contava-me um ministro inglês que
quando os primeiros carros chegaram ao Reino Unido, a Londres, passou-se uma
lei – vocês podem confirmar na internet – que era uma lei que dizia que à
frente de cada carro, estamos a falar do princípio dos carros, à frente de cada
carro deveria haver um homem com uma bandeira para avisar que vinha aí um
carro, para não haver acidentes. E no mundo digital ainda estamos muito nesse
princípio, ainda estamos um bocadinho talvez a legislar para ter um homem no
carro a avisar que há um carro. E daqui a trinta anos vamos pensar: mas que
estupidez, isto não fazia sentido nenhum.
E portanto temos que ter uma legislação que proteja,
porque a importância da proteção para o cidadão, e essa garantia, é
importantíssima, mas que não nos coíba de avançar no futuro. Isso é essencial.
Depois, em relação àquilo que vai ser o futuro nesta
parte digital, e que vai ser não só a parte da proteção mas a parte de abrir o
mundo. Essa abertura do mundo vai ser que tudo vai passar a ter, um bocadinho
como nós… hoje em dia, a eletricidade é o quê? A eletricidade… todos temos
eletricidade. Não faria sentido não ter eletricidade. E o mundo digital ainda
não é bem como a eletricidade. É alguma coisa que as empresas têm como algo
mais. Daqui a vinte ou trinta anos, ser digital vai ser como ter eletricidade.
Portanto, já não vai diferenciar ninguém.
Hoje ainda nos podemos diferenciar, dizendo: vou ter uma
empresa digital que vai ser melhor do que as outras. Eu vou ganhar e com isso
vou ser melhor do que os outros. E aquilo que eu contava há pouco sobre a
inteligência emocional da experiência, da vivência entre os outros, ainda
termos essa experiência que nunca pode ser substituída, é exatamente isso.
É que daqui a vinte anos não é ser digital que vos vai
diferenciar. Aquilo que vos vai diferenciar é ter capacidade de ser mais do que
o digital, que é ter essa experiência, essa vivência que só o ser humano pode
ter para criar produtos diferentes. Portanto, focalizem-se não só no digital,
mas qual vai ser a sua diferenciação ou a diferenciação daquilo que vão ter no
futuro, que é viver, por exemplo, em ambientes diversificados. Viajar, conhecer
pessoas de outros mundos, de outras religiões, com outras culturas. E é essa
mistura de maneiras diferentes de pensar que vai conseguir, ou não, que a
empresa que vão fazer ou a atividade que vão fazer seja melhor do que os
outros.
Duarte Marques
Muito obrigado. Ricardo Rio, do Grupo Bege.
Ricardo Grilo
Bom dia. Antes de lhe colocar a questão gostava de lhe
responder ao desafio que colocou, ou seja, se nos sentimos europeus.
Eu acho que há uma grande facilidade em dizer que sim
quando falamos do ponto de vista formal. Mas se olharmos do ponto de vista
identitário, nós, enquanto Grupo Bege, temos uma grande dificuldade em dizer
que somos europeus. Isto porque o conceito de cidadão, de dignidade humana, que
é um dos grandes pilares da União Europeia e da Europa, do ponto de vista mais
genérico, é aquilo que, de facto, define os europeus. Mas nós achamos que
existe um esbatimento desse conceito, face a muitas variáveis, e uma das apontadas
atualmente tem a ver com uma espécie de subjugação à economia. Portanto, nós
também acreditamos que a Europa digital pode ser uma resposta a um reforço do
conceito de cidadão e pode ajudar os europeus a perceber quais são os traços
identitários que nos torna, de facto, europeus, e que nos distingue em relação
a outros povos.
E a nossa pergunta surge também um bocadinho neste
seguimento, ou seja, em maio do ano passado, a Comissão Europeia anunciou a
vontade de lançar um projeto de um mercado único digital. E aquilo que nós
perguntamos é, mais de um ano depois e quase a terminar o ano, em que fase se
encontra este mesmo projeto, e se este projeto pode ser, de facto, essa
resposta para ajudar os europeus a perceber se são europeus e porquê?
E, também, se pode ajudar os países, por exemplo, a
tornarem-se mais competitivos no que diz respeito à sua capacidade para captar
empresas digitais de grande sucesso. Porque existe também uma argumentação que
é: tudo o que são empresas digitais de sucesso parece estarem fora da Europa,
ou pelo menos maioritariamente fora da Europa, como é o grande caso de Silicon Valley , na Califórnia.
É esta questão, que são duas, na verdade, que lhe pedia
para nos responder. Obrigado.
Carlos Moedas
Muito bem. Vem também um bocadinho ao encontro da
pergunta aqui da frente sobre os gigantes, a que eu depois entretanto não
respondi bem. Agora vou aproveitar este ponto.
Quando nós olhamos para a Europa, nós temos a maior
capacidade industrial do mundo. Temos as maiores indústrias… se vocês vão à
Alemanha, ou se vão a países como França, temos tecidos industriais da
indústria tradicional muito melhores do que nos Estados Unidos. Muito mais
avançados. A nossa indústria de ponta, ela é mais avançada do que noutras
partes do mundo. Mas deixámo-nos ultrapassar na parte digital.
Mas o mundo vai ser esta fusão entre o digital e o físico
e, portanto, aquilo que nós vemos hoje é que essas empresas digitais que,
durante muitos anos, faziam apenas o quê? Faziam algo no mundo digital, criavam
plataformas digitais. Elas hoje estão a entrar na indústria tradicional. Quando
uma Tesla quer fazer um carro, quando uma Google entra no mercado da energia e
cria o Nest, que é um termostato inteligente; o que hoje está a acontecer,
nesta revolução digital, é que passámos primeiro dez anos a fazer – e o livro
que vos aconselhava do Steve Case conta isso muito bem – a fazermos a
infraestrutura da internet; depois tivemos uma segunda fase em que construíamos
sobre a internet, ou seja, fazíamos determinadas aplicações sobre a internet; e
agora estamos numa terceira fase que é a internet a entrar na nossa vida e nas
nossas indústrias.
E a Europa tem uma oportunidade extraordinária. É que nós
temos essas indústrias. E, portanto, temos os Estados Unidos a virem do digital
para o físico, e nós a virmos do físico para o digital. E essa é a oportunidade
que temos naquilo que os alemães chamam a indústria 4.0 que não é mais do que
essa integração entre o físico e o digital, de criarmos essa oportunidade e de
sermos nós líderes nessa ligação entre o físico e o digital. Porque nós temos
essa capacidade e temos essas indústrias. Mas temos que ser capazes de dar essa
volta e de aceitar a revolução digital.
Agora sobre os grandes gigantes. Não sei se vocês se aperceberam
que ontem houve uma grande decisão da Comissão Europeia, uma decisão inédita da
Comissão Europeia, que veio trazer uma multa que pode ascender a mais de
dezasseis mil milhões de euros à Apple. E essa multa traz várias lições.
A primeira é que a concorrência tem que ser leal. E
ninguém pode concorrer simplesmente porque não paga impostos. E aquilo que a
Comissão vem mostrar é que uma determinada empresa – e há outras que estão sob
investigação – vem para o mercado europeu e criam estruturas onde não pagam
impostos. A minha colega da concorrência dizia ontem que achava muito estranho
que uma empresa que recebe em casa, ou na empresa, um papel a dizer que vai
pagar 0,05% de impostos, não peça uma segunda opinião. E que no segundo ano
receba outro papel a dizer que vai pagar 0,005% de impostos, não peça uma
segunda opinião. Algo está errado.
Portanto, temos que criar aqui o que os americanos chamam
um level playing field , ou seja, para
que as nossas empresas europeias possam avançar, elas têm que estar a concorrer
em pé de igualdade. E pé de igualdade é pagar os mesmos impostos. E muitos
desses gigantes têm tido no mercado europeu a possibilidade de ter vantagens
fiscais que não criam uma concorrência justa e leal. Quando uma empresa
europeia se instala nos Estados Unidos não tem esse tipo de vantagens.
Portanto, temos que criar também aqui uma equidade, uma
justiça que é importante para o futuro. E a decisão de ontem mostra a
capacidade e a força da Comissão Europeia, neste caso a Comissária da
concorrência, de tomar estas decisões.
É engraçado que a outra pergunta que fazia era sobre o
digital e o ser europeu. Eu acho que aquilo que nós vemos, cada vez mais, na
Europa – e é por isso que a minha vinda aqui é importante – é que os melhores
embaixadores que nós temos da Europa são vocês, são os jovens. São os jovens
que acreditam mais na Europa. E eu acho que os jovens acreditam mais na Europa
porque os jovens já não veem essas fronteiras. O digital vem tirar as
fronteiras.
Para um jovem é muito difícil vender o conceito de
fronteira física, porque ele não o percebe. Quando eu fui para Bruxelas, e
levei os meus filhos, e a minha filha de quinze anos chorava baba e ranho
porque não queria ir para Bruxelas, a única coisa que ela queria era ver os
filmes que via cá na internet. Para ela, isso era o mais importante. O problema
dela não era um problema de fronteira física, era ter acesso àquilo que tinha.
E esse acesso digital torna-nos, sem dúvida, mais europeus e também mais
portugueses. Porque quando se está longe pode-se estar perto. Pode-se estar em
contacto. Eu acho que o mundo digital abre essas portas.
E eu cada vez vejo mais nos jovens essa grande força de
gostar da Europa porque sentem a Europa. No outro dia achei piada… Nós acabamos
com o roaming , mas as forças são tão
grandes que, no outro dia, ouvia na rádio em Portugal um anúncio que, afinal, o roaming não tinha acabado. Mas como é
que é possível? Em 2017 o roaming vai
acabar, quer dizer que a pessoa pode telefonar em todos os lados da Europa e
pagar o mesmo. Isso é o que os jovens querem. Se o acesso à internet for mais
fácil, isso é o que os jovens querem.
Hoje, quando muitos daqueles que fazem start-ups, fazem
uma nova start-up, não estão preocupados se vão trabalhar em Lisboa ou em
Paris. Vão trabalhar onde trabalharem, vão trabalhar para quem trabalharem,
para quem comprar o vosso produto. E portanto isso torna-nos, sem dúvida, mais
europeus.
Simão Ribeiro
Daniela Lourenço, Grupo Roxo.
Daniela Lourenço
Bom dia. Antes de mais, em nome do Grupo Roxo, gostaria
de agradecer a sua disponibilidade para abordar aqui uma temática tão atual e
importante para os jovens. Pegando em dois temas aqui abordados, e já muito
falados nas duas últimas questões, big
data e internet das coisas, e também a primeira a pergunta aqui: o que é
ser europeu?
Assim, pergunto: qual seria a sustentabilidade de criar
um cartão de cidadão europeu que unificasse todos os Estados-Membros?
Carlos Moedas
Muito bem, totalmente de acordo. Eu penso que temos que
encontrar mais projetos com esse cariz. Projetos que tocam diretamente às
pessoas. E essa foi a grande diferença do Erasmus. É que o Erasmus tocava a
cada uma das pessoas.
Quantos aqui é que já fizeram ou querem fazer Erasmus? É
impressionante… Quem já fez ou quer fazer, só para ter uma ideia. Tenho a
impressão que há mais mãos no ar …
Eu acho que isso é a diferença. Quando nós muitas vezes
falamos nos grandes projetos de investimento da Europa, aquilo que vamos fazer
no futuro, e de criar isto… e não falamos realmente nessa capacidade de ter
projetos como aquele que referia, que é ter a Europa no seu bolso.
Uma vez, nas minhas viagens por essa Europa fora,
encontrei um senhor mais velho, num destes diálogos que fazemos com as pessoas,
e ele dizia-me: onde é que está a Europa no meu bolso? Onde é que está a Europa
no meu bolso, onde é que está o cartão da Europa no meu bolso? Onde é que eu
sinto a Europa? Há bocado alguém me perguntava sobre os desafios da Europa e eu
penso que esse é um grande desafio. É encontrar projetos pragmáticos da Europa
que toquem diretamente no indivíduo.
Muitas vezes ouvimos dizer: investimos cinquenta milhões
numa empresa, investimos cinquenta milhões em… mas será que as pessoas sentem
isso? E não sentem. E isso é de grande importância. Eu não sei se será
exatamente isso o que disse, mas acho que são ideias como essas, em que as pessoas
sintam a Europa no seu bolso que podem fazer a diferença.
Simão Ribeiro
Muito obrigado. Telma, do Grupo Azul.
Telma Cordeiro Fróis
Bom dia, e obrigada pela atualidade do tema.
O ordenamento do território não tem tido por parte da
União Europeia a atenção devida. Em Portugal, não existe ainda concertação
entre instrumentos de gestão territorial a nível local, regional e nacional.
Não se conseguiu ainda uma estratégia eficiente do território com um
planeamento integrado de macro e micro escala. Sobretudo a partir de 1986
ocorre a dissipação de recursos e oportunidades, aliada ao desconhecimento e
desinteresse dos responsáveis políticos e institucionais, mas também da
população em geral.
Numa Europa que se pretende digital, em 2013 foi adotada
uma alteração da Diretiva ISP. Cada Estado-Membro deve agora disponibilizar
mais documentos sobre o território, em formato digital, legível e aberto. A
nova realidade smart cities aposta em big data , ambicionando uma compilação
inigualável da informação sobre as cidades.
Até que ponto é inteligente a aposta na concentração de
informação de realidades tão descentralizadas em instrumentos de planeamento
estratégico? Não se constituirá como uma medida de exclusão social, favorecendo
somente os territórios que já são competitivos?
Obrigada.
Carlos Moedas
São vários ângulos da pergunta. Há um ângulo de que eu
gosto nessa sua pergunta, que é o ângulo do big
data e o território. Nós temos dos maiores projetos naquilo que é a
informação em tempo real do território. Aliás, agora com os incêndios, uma das
ajudas que foi dada pela Comissão Europeia foi o acesso a essa informação em
tempo real do que se está a passar em todo o território.
No mundo digital, isso leva a sítios que nenhum de nós
imaginou antes. Por exemplo, hoje não sei se já falam muito nos vossos
círculos, aquilo que é o chamado blockchain.
E o blockchain é a capacidade de
termos em tempo real, não só para transações financeiras, mas por exemplo em
termos de terrenos, uma capacidade a nível mundial, não ter ninguém que mande
no registo onde está esse terreno. O que quer dizer que, num país em que haja
um ditador que vem e de repente muda tudo, vamos ter sempre um track record ou vamos ter sempre um
registo de quem era aquele terreno, porque isso ninguém consegue apagar. E o blockchain tem essa capacidade de não
ter ninguém que possa destruir aquilo que é, por exemplo, um registo de
propriedade, que é tão importante para o ordenamento do território.
Aquilo que nós, na Europa, estamos a fazer é desenvolver
esse tipo de tecnologias, seja o blockchain ,
seja, no nosso programa Copérnico, da parte de análise de data. E depois partilhar com o mundo todo, porque isso não é só
europeu. O maior projeto que temos a nível mundial chama-se o GEO, Global Earth Observation , e esse Global Earth Observation junta todos os
países com toda a informação em tempo real. E isso tem mudado a capacidade de
responder, seja a grandes desastres, de tremores de terra, de fogos, pela
capacidade que termos tido de rapidamente juntar a informação e poder fornecer
a informação às autoridades locais, que é essencial para o combate a estes
flagelos, não só na situação da urgência, mas também na prevenção.
Mas, sem dúvida, que a parte do território – e cada vez
mais as regiões contam na Europa como aquilo que são os polos de
desenvolvimento – é um dos pontos com que nos preocupamos e queremos levar mais
à frente.
Simão Ribeiro
Bruno Santos, Grupo Amarelo.
Bruno Dias Santos
Bom dia. O Grupo Amarelo agradece ao senhor Comissário a
sua presença aqui hoje, saúda a Mesa, e eu, ao nível pessoal, queria agradecer
à JSD e a todos vós, a oportunidade de participar nesta vossa experiência
única.
Passando à pergunta. É um facto inegável que a revolução
digital vai mudar o trabalho tal como o conhecemos hoje, e que o muda já hoje.
Temos bancos a fechar balcões porque estão a passar para o digital; foi criado
ou introduzido há pouco tempo o primeiro táxi com condução automática – veja-se
a ironia, a Uber já está a ser ultrapassada.
E não querendo ser um Velho do Restelo, porque já tivemos
outras revoluções tecnológicas e sempre nos adaptámos, sempre criámos novos
empregos, o desemprego não aumentou como nessa altura se dizia que ia aumentar,
queria perguntar ao senhor Comissário que preparativos podemos fazer, já hoje,
para nos prepararmos para viver nesse amanhã? Não para o criarmos, mas para
vivermos nesse amanhã. Como adequamos o nosso sistema educativo, como adequamos
o nosso trabalho, como o fazemos hoje, como mudamos a nossa maneira de pensar,
em que temos um modelo educativo de cinco anos universitários, e chegamos ao
fim e já estamos desatualizados, para um mundo em que vamos ter que ter uma
atualização permanente?
Muito obrigado.
Carlos Moedas
É um dos grandes desafios na Europa, porque nós ainda
temos um sistema universitário que é muito feito através de silos e muito
verticalizado. Portanto, nós ainda temos um sistema universitário em que as
pessoas entram e só estudam uma determinada matéria até ficarem especialistas
nessa matéria. E aquilo que se vê hoje no mundo é exatamente o contrário. Tem
que haver fronteiras cada vez mais baixas entre as diferentes matérias. Ou
seja, alguém deve poder começar a fazer uma primeira parte dos seus estudos em
direito e depois passar para economia, se achar que gosta mais de economia. Que
comece em engenharia e depois vá para biologia.
Os países que têm menos desemprego juvenil e que têm maiores
oportunidades, neste momento, são os países em que essa passagem entre as
várias disciplinas, os vários tipos de profissões, é mais fácil. Em que há
menos barreiras. Os Estados Unidos é um excelente exemplo, em que a educação
universitária é feita, em primeiros três anos, que apenas dão uma visão muito
geral daquilo que é o futuro das disciplinas gerais de humanidades, por
exemplo, de artes, de ciências, e as pessoas só depois disso é que vão escolher
qual é a sua profissão. E isto permite muito maior flexibilidade entre as
várias áreas.
Portanto, para mim a preparação melhor que podem fazer é
prepararem-se para um mundo em que aquilo que pensam que vai ser a vossa
profissão vai mudar, pelo menos, dez vezes, quinze vezes na vossa vida. E que
vão começar por tirar um curso numa determinada áreas, depois farão trabalho
numa outra área. Vão fazer trabalhos em áreas que ainda não imaginam.
E isso é a revolução digital. Porque muitas destas
empresas… quando pensam numa empresa como a Twitter, nasceu em 2007 ou 2008; a
Google nasceu no princípio dos anos dois mil, e ninguém conhecia o que era a
Google. Hoje emprega muitas pessoas, que nunca imaginaram que aquela seria a
sua profissão. E por isso, eu penso que é essa capacidade que vocês vão ter ou
não de passar de um lado para o outro que vos vai fazer essa diferença.
Simão Ribeiro
Aleksei, Grupo Laranja
Aleksei Chemisov
Bom dia a todos. Sendo que o resultado do referendo no
Reino Unido trouxe muita incerteza para as empresas, para a banca, e muitas,
neste momento, consideram mudar a sua sede para outra cidade europeia; a banca,
nomeadamente, para Frankfurt, e o ecossistema das start-ups considera
seriamente mudar.
Tendo em conta que Portugal é um país fantástico, um país
com provas dadas de inovação e empresas de sucesso, como referiu a Farfetch,
tendo em conta que tem muitos jovens instruídos, como pode aqui confirmar,
tendo em conta que Lisboa foi a cidade escolhida para receber a Web Summit
deste ano, como podemos estimular que a mudança dessas start-ups seja feita
mais para Lisboa, sem sermos promíscuos nos nossos estímulos, como o caso
recente da Irlanda em relação à Apple.
E deixe-me ser também um bocado atrevido. Tendo em conta
que a Web Summit é um evento muito importante, cujos bilhetes são muito caros,
e tendo em conta que para o senhor Comissário, se calhar, é um bocadinho mais
fácil aceder aos bilhetes do que para nós, jovens, deixava-lhe o desafio de na
sua página do Facebook lançar um desafio para os jovens realmente interessados
neste setor, e oferecer alguns bilhetes.
[Aplausos]
Carlos Moedas
Vamos tentar fazer aqui uma vaquinha com o senhor
eurodeputado Carlos Coelho para os bilhetes.
Eu acho que a Europa é muito atrativa e tem sido muito
atrativa para todas essas empresas americanas. O que tem acontecido é que essas
empresas americanas depois vêm para a Europa e conseguem, de certa forma, ter
uma desigualdade fiscal, e isso não está correto. E as nossas empresas
europeias que vão para os Estados Unidos não têm essa capacidade e, portanto,
nós temos que conseguir criar essa equidade fiscal. E isso é importante para a
justiça e para a igualdade. Portanto, nós vamos ter que, no futuro, arranjar
maneiras de criar essa igualdade entre as várias empresas no mundo. Não podemos
viver num mundo em que há uns que pagam e outros que não pagam. Eu penso que é
a raiz da sua pergunta, mas eu depois perdi-me aí um bocadinho, pedia só…
Aleksei Chemisov
É o caso mais português. Como podemos nós atrair para que
as start-ups queiram entrar no sistema de start-ups em Lisboa, eventualmente,
em vez de no de Berlim, tendo em conta que nós somos jovens com o mesmo nível
de educação que os alemães. Temos a barreira linguística, neste caso, principalmente
no mundo digital não é um problema…
Dep.Carlos Coelho
Ok, eu acho que a ideia foi percebida.
Carlos Moedas
A experiência que eu tenho é que Lisboa cada vez está
melhor em termos dessa atração das start-ups e cada vez há mais pessoas no
mundo a perguntarem-me como é que podem vir para Lisboa. Eu estive num evento
de start-ups, em Berlim, e senti que aquele evento não era tão bom como os
eventos em que eu estive em Lisboa.
Eu penso que Lisboa vai, sem dúvida, nos próximos anos,
trazer grandes surpresas e conseguir criar aqui grandes hubs de start-ups; disso não tenhas dúvida absolutamente nenhuma.
Simão Ribeiro
João Coelho, Grupo Castanho
João Coelho
Bom dia. Eu levei aqui uma facada agora, porque a minha
pergunta era muito parecida com esta,
[Risos]
mas vou tentar explorar aqui um ângulo um bocadinho
diferente.
Falamos muito sobre a Europa, este contexto do mercado
digital, da função digital no contexto da Europa, e eu queria trazer o foco de
volta para Portugal, como o meu colega acabou por fazer antes de mim. Tendo em
conta que Portugal tem uma ótima infraestrutura de internet de banda larga,
conectividade, em termos de redes e telecomunicações somos dos melhores países
da Europa, como é que podemos aproveitar isso para tirar partido do mercado
digital, que políticas públicas é que podemos promover para tirar partido
disso, e como isso é muito parecido com a pergunta anterior, o twist que eu
queria aqui introduzir era se podemos aproveitar isso, de alguma maneira, para
combater os efeitos da desertificação do interior no país.
Obrigado.
Carlos Moedas
Eu acho que no mundo digital vai haver muito menos este
problema do que é o interior e o que é o centro. E isso é a grande vantagem que
vamos ter para o futuro. Aquilo que vocês hoje olham como a desertificação,
como viver ou não viver no centro, no mundo digital nada disso interessa. Ou
seja, o mundo digital é excelente para os países mais pequenos. Porque o mundo
digital… eu no outro dia visitava a Feedzai que é uma empresa não muito longe
daqui, que todos os seus clientes estão nos Estados Unidos. Os clientes não
fazem a mínima ideia de que eles estão em Portugal.
Portanto, aquilo que nós vemos hoje no mundo digital é
que esse mundo não tem realmente fronteiras. E isso é extramente positivo para
Portugal, porque antes, para se fazer uma empresa em Portugal, que tivesse um
impacto mundial, era preciso começar aqui, depois montar em França, depois em
Inglaterra e depois ir para os Estados Unidos. Hoje, o único sítio em que tem
que se estar é o sítio onde haja o dinheiro para se montar essa empresa. Qual é
o problema hoje, ainda, de Lisboa, um bocadinho em relação àquela pergunta? É
não ter os venture capitalists , ter
aqueles que podem pôr o dinheiro no momento certo para levar a empresa até
outro patamar.
Porque é que em Boston, por exemplo, nos Estados Unidos,
se criou um dos melhores sítios para investir em biotecnologia? Porque todos os venture capitalists , todos aqueles
que tinham dinheiro e queriam investir, foram para Boston. E o ponto é
atraí-los para Portugal. Porque se houver dinheiro, em Portugal pode-se
construir e depois pode-se, imediatamente, ter os clientes em toda a parte do
mundo. E isso, para mim, é das maiores vantagens que nós podemos ver em relação
à economia sem fronteiras, é que esse não haver fronteiras não implica
fisicamente onde é que se está.
Isso é o exemplo da Feedzai; no Porto têm uma empresa que
é a Veniam, que não sei se já ouviram falar, que foram aqueles que criaram
todos os transportes públicos do Porto terem spots de internet, ou seja, a
pessoa pode estar no autocarro e ter internet. Cada um de nós é, no fundo, um
spot de internet. Eles criaram isso no Porto, mas estão em São Francisco, estão
em todo o mundo, porque estão a ser os únicos que estão a fazer o que eles
chamam internet of the moving things ,
ou internet das coisas que se mexem. E isso tem sido feito através de uma
empresa no Porto. E quando eu vou lá fora e falo na Veniam, as pessoas nem
sabem se é do Porto, nem sabem se é de Portugal, mas também pouco interessa.
O que interessa é que o mercado é global para quem tenha
acesso à internet. Aqueles projetos mais importantes hoje, é ter acesso à
internet, mesmo nas zonas mais interiores do país. Eu acho que em Portugal
deveria haver um projeto de como é que levamos até às zonas mais interiores do
país internet de banda larga. Acho que isso é essencial e, em muitos sítios,
isso ainda não acontece. Mas digo-vos que é muito melhor do que noutros países na
Europa. Portanto, Portugal também não se pode queixar nesse aspeto.
Simão Ribeiro
Muito obrigado. Antes de passar a palavra ao João do
Grupo Vermelho, quero informar-vos que estão abertas as inscrições para o catch the eye , talvez três questões,
portanto para os três mais rápidos… Ok, está fechado.
João, Grupo Encarnado.
João Pedreda
Bom dia, antes de mais. A minha pergunta é uma pergunta
mas duas perspetivas diferentes.
A primeira é: detendo o pelouro, no sentido mais lato, da
inovação, e tendo mostrado inúmeras vezes, no passado, que apoia o aparecimento
de novos mercados que previamente não tinham sido regulados, como por exemplo a
Uber ou a Airbnb, como é que quer fazê-lo numa das instituições mais burocráticas
da história, e o quão frustrante é que isso pode ser?
Depois, numa perspetiva mais abrangente, à procura de
soluções, como enfrentar as inovações que não podem passar obrigatoriamente por
um processo de integração de lacunas por analogia, principalmente quando o
processo legislativo ordinário passa por um processo de codecisão que, muitas
das vezes, põe duas forças que parecem quase opostas, como é o caso do
Parlamento e do Conselho.
Muito obrigado.
Carlos Moedas
A primeira é bastante chalenger a responder. Quando nós estamos numa Europa a vinte oito, para se conseguir
chegar a consensos é difícil. E obviamente que no mundo digital tem sido
difícil, muitas vezes, conseguir esses consensos entre todos. Porque vivemos
num mundo em que muitos políticos, o que querem, é o protecionismo do seu
próprio país, criar maneiras de não ter a tal Europa. E tem sido realmente
difícil.
Mas eu acho que no projeto do mercado único digital já
conseguimos chegar muito longe. Por exemplo, desde tudo o que tenha a ver com o
chamado geoblocking , que é como é que
nós vamos conseguir desbloquear alguém que está em Portugal, vai para outro
país na Europa, e depois não pode ver aquilo que via em Portugal através da sua
subscrição ou que tinha pago um determinado serviço. E estamos a trabalhar para
que isso não volte a acontecer, para que não tenhamos barreiras.
Aquilo que vai acontecer, e que já aprovámos, é que tudo
o que tem a ver com produtos físicos, ou seja, quando estamos a vender produtos
que sejam físicos, pela internet, um determinado produto que vai ser enviado de
um país para outro país, que isso seja feito sem barreiras. E estamos a estudar
agora com as empresas como os CTT de todo os países para que não haja
diferenciações no preço. E isso tem avançado muito e penso que vai ser um dos
grandes pontos. As pessoas vão poder comprar na internet tudo o que sejam
produtos físicos sem ter qualquer tipo de barreira, o que hoje não é verdade.
Quando a pessoa quer comprar um produto num site que seja alemão ou espanhol, depois
tem dificuldades, muitas vezes, seja ao pagar mais em transporte, a pagar mais
por algo que devia ter o mesmo preço.
E tudo isso tem avançado com dificuldade. A sua pergunta
é boa, porque as dificuldades são sempre muitas. Mas essa é também a beleza da
Europa. É essa a beleza que nós temos, que é sermos uma entidade com uma grande
diversidade, e é muito mais difícil gerir na diversidade do que gerir quando
somos iguais. Se formos todos de Castelo de Vide, todos pensaremos da mesma
maneira. Se somos todos de Beja, também pensamos todos da mesma maneira. Quando
somos pessoas de sítios tão diferentes é preciso conseguir trabalhar de uma
maneira diferente. Mas quando chegamos a resultados, eu penso que eles são
melhores do que se fossemos todos iguais. Portanto, essa é a esperança que eu
tenho.
Essa era a primeira, e depois tinha uma segunda… desculpe
lá que eu agora… ah, codecisão.
Isso é um processo que o senhor eurodeputado Carlos
Coelho conhece, como eu dizia, ele é o homem que mais sabe dos detalhes da Europa,
ele pode explicar no detalhe.
Eu penso que isso tem um problema de comunicação com a
Europa, é que os cidadãos não percebem. Não percebem e, muitas vezes,
acontecem-nos alguns pontos que são ridículos, que é: vai uma proposta da
Comissão para o Parlamento, para depois ser decidida e ser falada com o
Conselho, e toda a gente quer pôr o seu ponto, todos os deputados querem pôr
mais qualquer coisinha. E aquilo que era uma lei que vinha limpa, que vinha com
um determinado objetivo, acaba por ter uma série de mudanças que a tornam não
tão boa como ela era, que a tornam mais complexa, e depois os cidadãos
reclamam.
Por exemplo, quando foi agora no Brexit, muitas das
coisas que apareciam na imprensa inglesa a dizer que tínhamos uma determinada
lei que obrigava as pessoas a comerem bananas só de uma cor… aquele típico mito
sobre a Europa. Muitas dessas mudanças não tinham sido mudanças que tinham sido
uma proposta da Comissão, mas tinham sido o produto dessa discussão, dessa
codecisão, entre o Parlamento e o Conselho e dessas discussões infindáveis que
depois levam a compromissos que, quem os conhece e quem está lá, percebe,
porque está a discuti-los, mas depois, de repente, aquilo vem à luz do dia e
muitos desses compromissos podem não fazer sentido. Uma lei, quando chega a
esse processo de codecisão, normalmente vai ter mais vinte ou trinta por cento
de determinadas mudanças que, muitas delas, deveriam ser evitadas. Mas esse é o
processo de decisão que temos na Europa, e é o processo de decisão que temos
que ter porque são vinte e oito vontades diferentes.
Mas é um processo que tem que ser trabalhado e tem que
ser repensado, no futuro, com calma, eu penso que são reflexões para o futuro,
não são reflexões que possam ser feitas agora, porque implicavam mudanças de
tratados, que são impensáveis neste momento. Mas é uma excelente questão.
Simão Ribeiro
Muito obrigado. Primeiro bloco, duas questões. Anyse
Pereira e, de seguida, Daniel Pereira. Uma do Grupo Cinzento, e o Daniel do
Grupo Verde que, tanto quanto sei, não são familiares.
Anyse Pereira
Bom dia. Muito obrigada, senhor engenheiro, por esta
palestra. O que eu queria perguntar era: Portugal foi, com a crise, dos países
mais afetados. E uma das consequências foi a redução no financiamento destinado
à ciência e investigação. Segundo o FMI, Portugal é dos países que menos gasta
em investigação e desenvolvimento. E se esse investimento fosse aumentado, o
PIB poderia subir em até 5%. Em 2014, o PIB investido foi de 1.3, enquanto a
União Europeia recomenda, pelo menos, se possível, 3%.
Percebe-se, porque a investigação e desenvolvimento
implica um grande investimento do Estado e do governo. No entanto, os países
mais desenvolvidos são os que mais investem em investigação, desenvolvimento,
ciência, em todas as áreas, tanto nas áreas da comunicação e novas tecnologias,
como nas ciências da saúde.
Então, queria saber o que é que o senhor engenheiro acha:
é necessário já estar rico para investir, ou seja, é necessário ter o dinheiro
para investir, ou então podemos fazer desse investimento um caminho para
aumentar a riqueza. É isso.
Simão Ribeiro
Daniel, desculpa, antes de colocares a questão, só para
informar que estamos a aceitar mais inscrições. Não prometo quantas, mas ainda
são aceites.
Daniel Pereira
Olá, bom dia. Felizmente existem muitos apoios para
apoiar start-ups na Europa e em Portugal. Mas conheço muitas outras em fase pré seed , com projetos de grande
potencial de internacionalização e de inovação, que não têm capacidade financeira
para desenvolver um simples protótipo para fazer uma prova de conceito, que é
fundamental para conseguir convencer um primeiro investimento, business angels , e futuramente um mais
avultado de ventures capital.
Que apoios ou soluções europeias existem especificamente
para estes casos? E se poderia também haver uma maior aposta em incubadoras de
empresas e aceleradoras no interior do país, de forma a desenvolver o emprego e
o desenvolvimento empresarial.
Carlos Moedas
A primeira era sobre o investimento na inovação. Eu acho
que pôs de uma maneira muito interessante a sua pergunta, porque é exatamente
isso, eu acho que temos que investir para conseguir ser mais ricos, e não o
contrário. Claro que depois o contrário, por definição, acontece, ou seja,
quando já somos ricos, já por definição investimos mais. Mas os governos têm
que fazer escolhas para conseguir investir mais em inovação e ciência, para
poder desenvolver mais e ter maior riqueza.
Agora, Portugal fez um grande caminho. Portugal, antes da
entrada na União Europeia, investia 0,4% do seu produto interno bruto em
ciência e inovação, e foi fazendo um caminho muito longo, e hoje é um país que
está a meio da tabela.
Há países que investem 4%, como a Finlândia, como a
Suécia, como a Dinamarca, e depois há países que investem menos do que
Portugal. Mas Portugal tem sido um grande exemplo, durante muitos anos, mas
ainda tem um grande caminho à frente, e é esse caminho que temos de continuar a
fazer.
Porque, no fundo, os países só podem enriquecer por duas
vias. Ou enriquecem e têm uma maior produtividade porque diminuem os salários,
e então as pessoas ganham menos e produzem mais por um preço inferior, e não é
esse o caminho que a Europa quer. Nunca foi esse o caminho que quisemos. Fomos
obrigados a uma determinada altura, porque chegámos a um ponto em que já não
conseguíamos fazer doutra maneira. Mas a ideia é que os países na Europa
consigam enriquecer através de vender produtos melhores.
Ou seja, se vender um produto mais caro, eu tenho alguém
que me quer comprar esse produto mais caro, e ao comprar esse produto mais caro
pode ter uma empresa que, ao vender um produto mais caro, pode pagar melhor aos
seus trabalhadores. Portanto, a inovação é essa capacidade de subir no valor
daquilo que vendemos para poder criar maior riqueza e melhor emprego. Um país
que tenha essa sensibilidade de dizer: eu não vou conseguir chegar aos 3%, mas
vou fazer aqui escolhas de onde vou investir. Se ele investir mais em inovação
e ciência terá, no longo prazo, mais resultados. O problema é que a ciência e
inovação têm ciclos de dez anos e os governos têm ciclos de quatro anos.
Portanto, um governo que toma essa medida e que diga que vai investir mais
naquele setor e depois não investe noutros setores, vai ser eventualmente
penalizado, e esses políticos vão dizer: vou agora ser penalizado por algo que
só vai ter um resultado daqui a dez anos. Portanto, tem que haver uma visão
conjunta do país e das várias forças políticas da importância desse
investimento na inovação e na ciência.
E é isso que é também um bocadinho o meu papel, ajudar a
que esta ponderação não seja apenas política, mas seja também técnica e
económica, de forma a conseguir investir cada vez mais em inovação e ciência
para conseguir ter produtos melhores, empresas melhores e melhores salários.
Sem isso nós não conseguimos. Porque a outra via é a via a que chegamos quando
temos crises, que é dizer: e agora o que fazemos para nos mantermos à tona de
água? Temos que reduzir, ou fazer que as pessoas trabalhem mais pelo mesmo
preço. Mas isso não é maneira de enriquecer. Isso é maneira de resolver um
problema num determinado momento. Mas não é uma maneira de enriquecer, temos
que mudar esse espírito.
Portanto, é esse caminho que estava a dizer, porque
depois quando os países já são ricos, tudo é mais fácil. Já podem investir por
definição, porque têm mais dinheiro. Mas veja-se os casos, por exemplo, da
Finlândia, que era um país que só depois dos anos noventa é que começa a
investir, mas investiu durante dez anos, não foi uma coisa de um dia para o
outro.
Depois os pontos sobre as start-ups e sobre os
instrumentos. Nós temos vários instrumentos muito interessantes para as start-ups.
Há um instrumento que nós temos no meu programa, que é o PME Instrumentos,
chama-se SME Instrument em inglês, (podem ir à internet) é diretamente feito
com a Comissão Europeia, enviam uma pequena candidatura com dez páginas a
contar qual é o projeto que têm, qual é a ideia que têm – não é bem um business plan , mas é expor a ideia –, e
onde conseguem receber, mais ou menos, logo cinquenta mil euros à cabeça, e
depois é analisado o business plan , e
mais tarde pode chegar até dois milhões e meio, três milhões de euros por cada
projeto.
Portugal já tem conseguido alguns desses projetos;
conseguiu agora um há pouco tempo na área do Porto, na área dos vinhos, mas há
muitos mais desses projetos que se podem conseguir, não só de empresas já
existentes, mas de pessoas que estão a formar a sua própria empresa.
Muitas vezes o que é difícil é navegar nos diferentes
projetos europeus, e onde é que a pessoa pode ir. Às vezes é quase preciso
tirar um curso para saber quais são os projectos que podem ajudar as start-ups
portuguesas, porque as pessoas não sabem, não sabem se são fundos estruturais,
se é o Horizonte 2020, se é outro tipo de fundo. Tem que haver um ponto de
contacto, nós temos aqui em Portugal um a que chamamos ponto de contacto
nacional, para que as pessoas se possam informar e saber quais são as ajudas
que têm. Mas há muitas ajudas que, muitas vezes, as pessoas nem sabem que
existem, e isso é pena.
Simão Ribeiro
Robert Neves, Grupo Laranja; prepara Gonçalo Silva, do
Grupo Verde.
Robert Neves
Antes de mais, gostaria de cumprimentar o nosso
excelentíssimo Comissário, Eng.º Carlos Moedas, e os restantes membros da Mesa,
e desde já agradecer a atenção e o trabalho inexcedíveis de toda a equipa da
Universidade de Verão ao longo da semana.
Aqui há cerca de um mês, num programa, creio que da SIC
Notícias, pude constatar que, no Reino Unido, em média, um merceeiro ou um
padeiro, têm uma carga fiscal quatro vezes superior às grandes corporações, se
compararmos a escala. Não será a desigualdade fiscal entre o cidadão comum e
estas grandes corporações a causa subjacente ao surgimento recente dos
nacionalismos e extremismos pela Europa fora?
E na sequência desta questão, será possível alcançar uma
verdadeira uniformidade fiscal a nível dos vinte e oito, ou dos vinte e sete,
tendo em conta os acontecimentos do mês de junho?
E quanto ao tema a que esteve subordinada a sua
intervenção, a Europa digital, tendo em conta as desigualdades estruturais
existentes nos vinte e oito, essa Europa digital poderá ser concretizada? Qual
será o hiato temporal em que se pode concretizar verdadeiramente a Europa
digital?
Obrigado.
Gonçalo Silva
Antes de mais, bom dia a todos. Senhor engenheiro, as
minhas duas perguntas vêm no sentido daquela que foi a reflexão com que iniciou
a sua exposição, a propósito do sentimento europeísta. E eu gostava de lhe
perguntar, em primeiro lugar, se um maior sentimento de pertença à União
Europeia não acarreta necessariamente uma reforma profunda do sistema político
que está em vigência na União.
E em segundo lugar, se os mecanismos constitucionalmente
criados que hoje permitem à Assembleia da República intervir em alguns
processos de decisão ao nível da União Europeia, não são insuficientes?
Carlos Moedas
Começar aqui pelos impostos do padeiro, ali atrás.
Eu penso que, sem dúvida, esse é um dos pontos que cria
essa angústia e essa revolta. E isso foi uma das provas da decisão que foi
tomada ontem em relação a Apple. É que há uma perceção – perceção e realidade,
também – que muitas das grandes corporações, das grandes empresas, podem
simplesmente criar estruturas em que praticamente não pagam impostos. E o homem
da rua, a mulher da rua, paga muito mais impostos do que estas corporações. E
isso tem criado, realmente, essa desigualdade e depois essa revolta.
Agora, é natural que os países encontrem sistemas para
atrair as empresas para virem para os países deles. Mas tem de ser feito dentro
do patamar da igualdade. Por exemplo, nesta decisão da Apple, a Comissão não
critica que a Irlanda tenha uma taxa de imposto que seja de 12,5%. O problema é
que a Apple não pagava 12,5%, nem 10%, pagava menos de 1%. É dessa diferença
que estamos aqui a falar. E isso realmente cria um grande sentimento de
injustiça e é algo que tem que ser cada vez mais explorado, e mais tratado.
Eu diria que é um dos pontos essenciais na agenda da
Europa, a transparência fiscal e depois essa justiça fiscal. E enquanto isso
não se conseguir as pessoas vão sempre sentir-se revoltadas, o que, até agora…
as pessoas tinham isso no ar mas não tinham ainda digerido. E hoje as pessoas
digerem essa atitude e dizem "isto não é possível”.
Como sabe, tudo o que tem a ver com impostos é uma
responsabilidade nacional. Aquilo que acontece aqui nesta decisão da Apple, foi
uma decisão do chamado "auxílio de Estado”, portanto, foi uma decisão da
concorrência. Não foi uma decisão em relação à parte dos impostos. Aquilo que
se disse foi: a estrutura que foi criada, e que a Apple tinha criado na
Irlanda, era uma estrutura em que tinha uma empresa que não tinha empregados, e
que conseguia declarar todo um conjunto de rendimentos e de lucros que eram
feitos sem ter empregados. Portanto, era uma empresa que não existia e isso foi
considerado auxílio de Estado, mas não foi na capacidade de decidir sobre os
impostos porque a Europa não tem essa responsabilidade.
E depois fez-me qualquer
coisa sobre a parte digital, que era como é que a parte digital podia ajudar
exatamente neste ponto dos impostos. Foi isso?
Robert Neves
Mais a questão se, tendo em conta as desigualdades
estruturais existentes nos vinte e oito Estados-Membros, quanto tempo é que
levaria a concretizar verdadeiramente essa Europa digital, no seu todo?
Carlos Moedas
Eu espero que seja algo que seja feito durante estes cinco
anos que estamos aqui a construir. E muito já foi feito, e muito está a ser
avançado. Se nós conseguirmos, como conseguimos – demorou muito tempo -, mas
acabar, por exemplo, com o roaming, de conseguir acabar até 2019 com tudo o que
é o geoblocking , conseguir criar
estas estruturas em que as pessoas podem comprar e vender na Europa sem ter
barreiras, isso já vai ser a criação dessa Europa digital. Nunca ficará
completa, vai sempre demorar tempo e vai sempre demorar anos até chegarmos
àquilo que será a realidade. Mas a legislação, a parte legislativa, eu penso
que será feita durante este mandato da Comissão.
E depois era uma pergunta mais difícil sobre a reforma do
sistema político na Europa. É difícil dizer, ou é difícil pensar, é um
bocadinho aquilo que o Van Rompuy dizia, ou seja, o preço a pagar pela paz,
porque, no fundo, se nós olharmos, a Europa esteve sempre em guerra, sempre em
guerra.
Eu estava, no outro dia, no Estado de Baden-Wurtemberg,
que é no sul da Alemanha, a colar com a Áustria e com a Suíça, em que me
contavam que é um Estado que esteve sempre em guerra, esteve em guerra com os
outros Landers alemães, esteve em guerra com França, a própria História de
Estrasburgo.
Portanto, a Europa foi guerras atrás de guerras. E o
sistema político que se encontrou criou essa paz. Mas é um sistema complexo, e
esse sistema complexo vai ter que ser mudado lentamente, porque neste momento
não há condições para mudar aquele que é o Tratado de Lisboa. Portanto, não
mudando os tratados, não vale a pena estarmos a discutir o que é que poderia
ser mudado, porque não vai ser mudado neste momento.
Mas deve ser pensado para o futuro como é que podemos ter
decisões e sistemas de decisões mais simples. E sobretudo numa Europa que já é
a vinte oito e que poderá crescer, e portanto se a Europa crescer de vinte e
oito para trinta ou para trinta e dois, ou para o que seja, vai ter de criar
aqui sistemas de decisão mais simples, porque senão não vamos conseguir tomar
essas decisões.
E decisões que façam essa ligação, que depois também
falou, à parte das assembleias nacionais; e como é que essa relação entre a
assembleia nacional de cada país é com a Europa. E hoje em dia isso acontece e
todos os instrumentos são hoje possíveis. Ou seja, uma assembleia nacional,
seja portuguesa ou seja de outro país, pode juntar-se com outras e parar uma
determinada legislação. Portanto, o poder e a legitimidade democrática estão
aí. As assembleias parlamentares podem travar hoje determinados actos legislativos.
Portanto, vai ser esse conjunto, esse trabalho entre as
assembleias de cada país, e o Parlamento Europeu, e o Conselho, e a Comissão,
que nos pode levar mais longe, mas vai demorar tempo. Agora, eu não acredito em
reformas profundas. Acredito em reformas, pequenas mudanças que podem ir
melhorando, por exemplo, o que é o sistema da codecisão, o que são os trílogos,
como é que as pessoas decidem, e tudo isso, pelo menos para que os europeus
percebam aquilo que se está a fazer.
Simão Ribeiro
Muito obrigado. Último bloco de questões: Eduardo Magalhães,
do Grupo Encarnado, prepara Marcelo Morgado, do Grupo Castanho.
Eduardo Magalhães
Antes de mais, queria agradecer ao Eng.º Carlos Moedas
por estar aqui connosco hoje e pela palestra que nos deu.
Foi dito no início que o período mais globalizado da História
tinha sido o período pré 1914, pré Primeira Guerra Mundial, e isto aconteceu
efetivamente no auge do capitalismo, graças sobretudo a tratados como o
Cobden–Chevalier, de 1860, que, posteriormente, com o estatuto de nação mais
favorecida, alargou os acordos bilaterais entre vários países.
Este período da História da paz dos cem anos foi
conseguido por equilíbrio de vários fatores. Em termos políticos, a nível
global, pelo equilíbrio de poder que havia entre as forças dos Estados, forças
nomeadamente militares. E a nível nacional pela existência de um Estado liberal
que foi reformado posteriormente.
A nível económico havia sim, a nível global, um
padrão-ouro, e um mercado autorregulável a nível nacional.
E só pela conjugação destas quatro condições se conseguiu
fazer toda esta globalização a nível global. Posteriormente aconteceram choques
sistémicos que introduziram mudanças no mundo que, a meu ver, não mais poderão
ser retrocedidas.
E se atualmente se pretende na Europa, nomeadamente
dentro da Europa, um não equilíbrio de poder, mas antes uma aproximação do
Estado, nomeadamente através da criação de um sentimento europeu, a eliminação
de sentimentos nacionalistas; se faz sentido pensar em criar na União Europeia
uma União Federal, ou seja, passarmos a ser os Estados Unidos da Europa com que
Wiston Churchill sonhou no pós Segunda Guerra Mundial.
Se concorda que, isto sim, seria um caminho viável para o
futuro e se concorda que seria possível isto sobreviver, de certa forma, aos
sentimentos de perda de identidade por parte de alguns povos. Porque sabemos
que sim, que o continente europeu é dos continentes mais nacionalistas que há e
com mais medo de perda de identidade.
Muito obrigado.
Marcelo Morgado
Bom dia a todos. Senhor Comissário, gostaria de colocar a
seguinte questão: nesta época digital, onde a informação circula a uma
velocidade gigante, com os atuais perigos que os países europeus vivem da
possibilidade de terrorismo, não defende novas políticas de restrição à
informação? Recordamos todos os aqui presentes que alguns jovens foram
encorajados através das novas tecnologias a juntarem-se àqueles grupos de
terrorismo.
É esta a questão que eu lhe quero fazer. Muito obrigado.
Carlos Moedas
Começando aqui pela parte da História que aquele nosso
amigo trouxe, e muito bem colocada essa questão sobre a parte histórica. Eu
acho que é isso que nós temos que lutar no futuro: não podemos deixar que
aconteça como antes de 1914, em que de repente temos uma Europa que não
consegue ajudar na distribuição dessa riqueza, e que não consegue manter esse
pilar social. Portanto, a Europa tem que ser o garante… e tem que ser vista
pelos europeus, não como algo de punição, ou algo que está ali sempre a punir,
ou uma entidade que está sempre zangada, mas como uma entidade que seja um
recurso para os proteger. E essa proteção pode vir exatamente de a Europa ser
vista como a entidade que ajuda a essa equidade social e que consegue passar da
globalização, no seu sentido de crescimento de riqueza, mas para a distribuição
da riqueza.
E aquilo que foi anunciado ontem pela Apple é exatamente
isso - os cidadãos, pela primeira vez, olham e dizem: a Europa está a
defender-nos. Obviamente todos nós ficamos muito contentes que a Apple venda
muitos iphones , mas que tenha,
realmente, equidade e igualdade fiscal na Europa. E são atitudes desse tipo que
podem criar e colmatar um ataque pela extrema-esquerda de dizer que a Europa é
apenas neoliberal, e que a Europa é uma Europa neoliberal. Eu desde que estou
na Europa não tenho visto isso e não reconheço que haja, de todo, uma Europa
neoliberal. Existe uma Europa que quer defender os mais desfavorecidos.
Mas depois vem o sentimento da identidade nacional. E
esse sentimento, que está a ser explorado pela Marine Le Pen, pelo Nigel Farage
e por outros piores – porque há muitos que a pessoa não vê mas que são tão maus
como eles –, é um sentimento dramático, que é o sentimento de pensar que se
está aqui a criar na ideia das pessoas que, se elas mantiverem a sua identidade
nacional e se fecharem, que vão conseguir ter uma vida melhor.
E é essa capacidade que nós vamos ter ou não de dar a
volta e dizer: não, não vão ter uma vida melhor.
Essa identidade é importante para cada um de nós, a
identidade nacional deve ser conservada, mas não é ela que nos vai trazer uma
vida melhor. A identidade nacional é aquela que nos vai trazer um espírito
cultural diferente, de assumirmos a nossa culturalidade, e que na Europa é
muito rica. Porque se, na Europa, nós tivéssemos essa partilha de tudo o que é
cultural, da mesma maneira que temos, por exemplo, nos Estados Unidos, que é um
país, no fundo, mais homogéneo. Muito mais homogéneo em país, e obviamente é um
país e nós não somos um país na Europa.
Se nós conseguirmos aproveitar essa diversidade cultural
para alavancar aquilo que são os nossos produtos, ganhamos muito com isso, mas
não precisamos de perder essa identidade nacional. Não é por eu ser europeu que
deixo de ser português e não é por ser português que deixo de ser europeu. Acho
que ser europeu faz parte de ser português e ser português faz parte de ser
europeu.
E portanto temos que lutar contra esse populismo. São
esses os grandes desafios da Europa, que não são fáceis porque cada vez há mais
pessoas que acreditam nessa miragem. Eu costumo dizer que muitas dessas pessoas
que votam nos partidos extremistas, não votam porque são extremistas. Votam
porque estão cansados, estão cansados de que os próprios políticos do centro
não falem claro. Falam sempre na defensiva, com palavra sempre muito estudadas,
para não dizer aquilo que não deve ser dito.
E aquilo que nós precisamos é de políticos que falam ao
centro mas que falam claro. E que dizem, por exemplo, que se um país faz parte
da Europa, obviamente que ele fez um trade-off ,
fez uma escolha entre a sua soberania, entre mais soberania nacional ou
conseguir ter uma maior soberania global por fazer parte do grupo.
No fundo, o que é a escolha que é feita? É um bocadinho a
escolha em que nós ou queremos ter maior eficiência e ganhos de escala, mas
para isso não podemos ter todas as nossas preferências. É como partilhar um
apartamento. Se eu for viver com alguém para um apartamento, eu pago menos de
renda, mas não posso decidir tudo o que se faz naquele apartamento. Portanto, a
Europa são um conjunto de inquilinos em que, pelos ganhos de escala, criamos
maior riqueza, mas podemos, através de diminuir essa nossa chamada soberania
nacional, aumentar a nossa soberania global.
E depois tínhamos aqui a pergunta sobre o digital.
Podia-me só relembrar qual era o âmago da sua questão?
Marcelo Morgado
A minha questão, penso que é a seguinte (penso não, tenho
a certeza): visto que a informação circula a uma grande velocidade, e como
todos nós aqui sabemos que os grupos terroristas, nos últimos tempos, têm feito
uma grande publicidade junto dos mais jovens para se juntarem àqueles grupos…
Carlos Moedas
Muito bem. Esse era o exemplo que eu estava a dar que nós
vamos ter que criar condições para que isso não aconteça. A minha colega da
justiça quis, e está a criar uma maneira, para que não possa haver nenhum tipo
de discurso de ódio no meio das redes sociais. E tem sido atacada por vários
países, com ameaças de pessoas que dizem, e de próprios jornalistas que dizem:
mas isso é contra a liberdade de expressão.
Eu acho que há um limite entre a liberdade de expressão e
o ódio de dizer na internet, constantemente, de mandar pessoas matar outras
pessoas, de intolerância religiosa. Eu acho que isso não é liberdade de
expressão, isso é racismo, é xenofobia, e a Europa não pode permitir isso.
Portanto, temos que ser muito, muito, muito restritivos
nessa ideia de que ninguém pode cometer crimes racistas contra outras
religiões, contra outras pessoas, e incitar a essa violência na internet,
porque isso não pode ser, não é aceitável na Europa em que vivemos e nos
valores que temos. Portanto, temos que ter uma capacidade muito forte, como
Europa, de não deixar que isso aconteça.
Agora, não podemos entrar numa espiral em que, de
repente, proibimos tudo. Agora temos que decidir muito o que é que temos que
proibir. Violência, intolerância religiosa, para mim, não são liberdade de
expressão, são racismo. E, portanto, o racismo deve ser proibido.
Dep.Carlos Coelho
Eu peço aos conselheiros para assumirem as suas funções
aqui junto ao Duarte. O Simão e eu vamos acompanhar o nosso convidado à saída.
Em nome de todos quero agradecer ao Comissário Carlos
Moedas a espetacular intervenção e as respostas que nos deu, não apenas com
grande atualidade, mas também com grande profundidade pedagógica.
Muito e muito obrigado.
[Aplausos]
Duarte Marques
Muito bem. Bom dia a todos. Vamos fazer as votações. Recordo
que estamos a avaliar a utilidade desta aula, desta conferência. Pedia a todos
que preparassem o voto. Vamos começar, como habitualmente, pela fila da frente.
Estão todos preparados?
Fila da frente, pode votar.
Muito bem, podem baixar. Segunda fila.
Muito obrigado, podem baixar. Terceira fila. Levantem
bem, quanto mais para trás pior nós vemos.
Podem baixar, obrigado. Fila seguinte, levantem o braço.
Podem baixar, obrigado. Fila seguinte.
Obrigado, podem baixar. Fila seguinte, última fila.
Podem baixar, obrigado.
Nuno Matias
Muito bom dia a todos. Nós temos aqui umas peças de
puzzle para cada um dos grupos para, agora durante a hora do almoço, colocarem
basicamente as medidas que se propõem nos trabalhos, para que depois possam ser
colocados nos placards durante a apresentação dos trabalhos de grupo. Portanto,
só têm que colocar, resumidamente, quais são as prioridades e quais são as
medidas.
A lógica das duas peças do puzzle é que numa peça colocam
as prioridades, na outra colocam as medidas. Correto?