ACTAS  
 
01/09/2016
Europa Digital: Oportunidade ou ficção ?
 
Simão Ribeiro

O nosso próximo orador é daqueles que a JSD e eu, em particular, tenho particular gosto em introduzir. Foi Secretário de Estado Adjunto do Primeiro-ministro num dos mais difíceis períodos da história da democracia portuguesa. É hoje Comissário Europeu para a investigação, ciência e inovação.

Como hobby gosta de ler e viajar. A comida preferida é o robalo grelhado, como nós só sabemos fazer em Portugal. O melhor é um restaurante em que foi a primeira vez com o deputado Carlos Coelho. O animal preferido é o Panda. O livro que sugere é "The Third Wave” de Steve Case; filme que sugere "All About Time” e a qualidade que mais aprecia é a energia positiva.

Convosco, Carlos Moedas.

 
Carlos Moedas

Muito bom dia. É difícil, de manhã, ser o primeiro; vamos lá ver se eu consigo que toda a gente mantenha a atenção. Mas queria começar por agradecer ao Simão Ribeiro, senhor Presidente da JSD, agradecer-lhe estar aqui, porque é sempre um gosto estar a falar para jovens, num momento tão difícil que atravessamos na Europa.

Depois gostava de agradecer a uma das pessoas, senão, para mim, das pessoas que mais sabe da Europa, em Portugal, que é o Carlos Coelho, e que está aqui hoje. Eu penso que as minhas referências sobre pessoas que sabem, realmente, no detalhe, a Europa e aquilo que a Europa representa, só vejo duas em Portugal: uma é o Carlos Coelho e a outra é o António Vitorino.

São pessoas que conhecem a Europa por dentro e por fora, e por isso queria deixar aqui a homenagem ao Carlos Coelho que, para além do amigo, é realmente um homem extraordinário. E eu testemunho a sua influência, todos os dias, quando estou na Europa, a sua capacidade, na Europa, de desenvolver, de falar, de levar as pessoas a conhecer a Europa no seu detalhe, e o trabalho que ele tem feito na Universidade de Verão, na Universidade da Europa e em tudo aquilo que tem sido o contacto com os jovens.

Aquilo que vos queria falar hoje – é um dia especial porque ontem tivemos a nossa primeira reunião do ano do Colégio dos Comissários, que é um bocadinho olhar para o futuro e pensar o que é que vamos fazer num mundo cheio de crises? O que é que está a acontecer e o que é que podemos pensar para a Europa que aí vem?

O exercício que vos propunha hoje era um exercício de pensar, primeiro, o que é ser Europeu. Será que somos europeus, que nos sentimos europeus? Eu sinto-me português mas também me sinto europeu. E porque é que sentimos essa capacidade, ou não, de ser europeu? E pensei quando, na minha vida - que deu muitas voltas – vivi durante muitos anos nos Estados Unidos.

E ao viver nos Estados Unidos, dei-me conta de que só tinha amigos europeus. Fossem eles do Norte, do Sul, do Este, do Oeste… E todos nos encontrávamos porque todos tínhamos algo em comum.

E esse sentimento de ser europeu é um sentimento que hoje, mais do que nunca, é importante. E gostava de vos perguntar, depois, quando estivermos na nossa sessão de perguntas e respostas, qual é o vosso sentimento. Sentem-se europeus? Sentem-se mais europeus, mais portugueses? Ou sentem-se portugueses mas também europeus?

Eu penso que há três características, para quem, como eu, viveu nos Estados Unidos, sentimos que há uma grande diferença entre ser europeu. E quando pensam naquilo que é ser europeu, eu penso que os europeus têm grandes diferenças em relação a qualquer outra parte do mundo.

E um dia, falando com Pascal Lamy, que é um homem de grande importância na Europa, que trabalhou com o Jacques Delors, foi Comissário Europeu, ele escreveu um livro em que dizia que os europeus tinham três características muito diferentes.

A primeira é que temos uma grande intolerância à desigualdade. E se repararem, para quem viaja, nós temos muito maior intolerância à desigualdade. Quando passeamos na rua, quando olhamos para aqueles que são os mais desfavorecidos, os europeus não gostam e não admitem essa desigualdade.

Depois, temos todos um maior equilíbrio entre aquilo que é o indivíduo e o coletivo. Em muitas partes do mundo, as pessoas raciocinam no individualismo puro – o que é que é bom para mim? Os europeus, de norte a sul, de este a oeste, são diferentes. Nós temos um maior equilíbrio nesse coletivo e no indivíduo. Pensamos no indivíduo mas também pensamos no coletivo.

E o terceiro ponto, que é de grande importância, é a nossa capacidade, como europeus, de termos uma maior sensibilidade, uma sensibilidade muito maior do que outras partes do mundo, àquilo que são as políticas ambientais e as políticas ligadas ao clima.

Quando estamos noutras partes do mundo, não temos a mesma sensibilidade. E Portugal mudou muito com isso, com a sua adesão à União Europeia. As primeiras políticas ambientais, em relação a tudo o que é o clima, foram e surgiram em Portugal depois da adesão à Comunidade Europeia.

Antes disso, Portugal não tinha esse sentimento, não conseguia chegar onde chegou hoje e onde vemos hoje uma geração como a vossa, que dá muito maior importância. E por isso a Europa, para mim, tem uma grande vantagem; é que nós somos o único ponto no mundo que somos capazes de ter uma visão sobre a globalização, a que alguns, como Pascal Lamy, chamaram a globalização civilizada.

E essa tem sido a visão da Europa desde sempre. Acreditar na globalização, porque nenhum de nós pode parar a globalização, nenhum de nós pode dizer que agora a globalização não nos interessa, e que vamos parar a globalização, que vamos fechar as nossas fronteiras, que não vamos ter acordos comerciais, que não vamos vender produtos para o estrangeiro e que não vamos comprar produtos do estrageiro.

Mas temos que ter uma civilização que seja civilizada. E se repararem, o que é a União Europeia? O que é que a União Europeia fez de diferente dos outros? E quando olhamos para os últimos 30 anos, vemos exatamente isso. A União Europeia consegue, primeiro, que todos aqueles que entram no clube, ou seja, que entram no clube europeu, comecem a ser mais ricos. A verdade é que não há nenhum país que tenha entrado na Europa que não tenha enriquecido e que não tenha dado condições de vida melhores à sua população.

O segundo é que a Europa tornou-se o centro da produção de conhecimento. A Europa são 7% da população do mundo, e produzimos mais de 30% do conhecimento do mundo. E esse é um ponto que ninguém nos tira. É um ponto em que eu, como Comissário da Inovação e da Ciência, vejo que todos aqueles que são investigadores, seja nos Estados Unidos, seja na China, seja no Japão, querem participar nos programas europeus, porque são os melhores programas de ciência e inovação.

E depois conseguimos, exatamente por esta visão civilizada da globalização, manter uma Europa social. Manter uma Europa que conseguiu perceber que a globalização, per si, aumenta a riqueza no global mas não consegue proteger os mais desfavorecidos. E a Europa social, o pilar social da Europa, é único.

Porque é que toda a gente quer vir para a Europa? Porque é que há este afluxo de refugiados para a Europa? Porque é que todos querem vir para aquele que é o nosso sistema, embora muitas vezes nós não demos valor ao nosso sistema? Eles querem vir para o nosso sistema exatamente por essa visão civilizada que temos da globalização. Que é uma visão de dizer: sim, a globalização cria riqueza, mas a globalização não distribui bem essa riqueza. E o ponto económico é como é que nós podemos criar riqueza e depois saber distribuí-la de uma maneira em que não criamos desigualdades. E esse é o grande ponto que temos à nossa frente.

Mas aquilo que nos perguntamos hoje é porque é que esta mensagem, que me parece simples, que a Europa e todos aqueles que entraram na Europa, convergiram e se tornaram mais ricos, que a Europa é o centro do conhecimento no mundo, que a Europa tem medidas e políticas sociais melhores do que todos os outros. Porque é que isso não chega? Porque é que muitos na vossa geração não sabem o que é a Europa? Não sabem o que fazemos na Europa, não sabem o que é a decisão da Europa e não sabem o que isso implica nas vossas vidas. Isso temos que nos perguntar, temos que nos perguntar a nós mesmos, porque é que aquilo que a Europa traz de bom, muitas vezes, não é reconhecido.

E, por isso, eu estar hoje aqui é de grande importância, porque a função de um Comissário é passar esta mensagem da Europa e daquilo que a Europa traz de bom.

Mas lembrei-me, antes de vir para aqui, gostava de vos ler - porque eu penso que isto diz muito sobre a Europa e que vão perceber melhor a minha mensagem -, ler-vos uma pequena mensagem quando Herman Van Rompuy proferiu o discurso de aceitação do Prémio Nobel à União Europeia.

E vou citar. Dizia Van Rompuy: A arma secreta da União Europeia é uma fórmula sem igual para unir os nossos interesses, de tal forma que a guerra se torna materialmente impossível, graças a negociações constantes sobre um número cada vez maior de assuntos entre um número cada vez maior de países. É a regra de ouro de Jean Monnet, dizia ele em francês: "mieux vaut se disputer autour d'une table que sur un champ de bataille." Mais vale discutir à volta da mesa que num campo de batalha.

E acrescenta: Há que admitir que alguns aspetos podem ser desconcertantes. Ministros de países sem litoral a discutir apaixonadamente as quotas de pesca. Eurodeputados escandinavos a debater os preços do azeite. A União aperfeiçoou a arte do compromisso. Nem dramas de vitórias, nem dramas de derrotas. Apenas a garantia de que todos os países saem vitoriosos das negociações e que, finalmente, temos todos de pensar que, para que assim seja, esta política enfadonha é afinal um pequeno preço a pagar.

Este é um dos pontos mais importantes que temos que perceber sobre a Europa. É que a diversidade que nós temos, os quinhentos milhões que somos, as vinte e quatro línguas que falamos, exigem uma cooperação que, muitas vezes, parece enfadonha. Porque temos que estar vinte e oito à volta da mesa. Porque a Europa são esses vinte e oito a tomar decisões. E que esse processo de decisão obviamente que é complicado, tem que ser complicado. Não pode haver um processo de decisão que seja simples com vinte e oito pessoas à volta de uma mesa.

Mas quando chegamos ao resultado, esse resultado é importante para a Europa e é importante para as vossas vidas. Mas aquilo que aconteceu foi que, aqueles que foram os pais fundadores, aqueles que criaram a Europa, e pensando em Schumann, em Monnet, o que eles sempre imaginaram foi que haveria uma integração económica, uma integração geoeconómica, e portanto as pessoas iriam viver melhor, e depois reconheciam que estavam a viver melhor, e como viviam melhor, iriam acreditar, iriam aceitar uma maior integração geopolítica. E era essa capacidade de crescimento económico que se traduzia depois em integração política.

E isso foi verdade. Foi verdade durante muitos anos. Essa integração geoeconómica aconteceu e isso levou-nos a uma integração política.

Mas temos de reconhecer que houve um momento em que já não funcionou. E hoje vivemos um momento em que voltamos à geopolítica, ou seja, em que a geoeconomia, que trouxe essa integração, chegou a um ponto em que já não consegue trazer maior integração política, porque já ninguém acredita, e porque já não há esse crescimento que houve durante esses primeiros anos. E aquilo que vos deixava aqui como mensagem e para discutirmos depois, nas perguntas e respostas, é pensar: mas porque é que isto aconteceu? Porquê esta dessincronização entre a economia e a política?

E esta dessincronização entre a economia e a política é dos problemas mais graves que temos a resolver para o nosso futuro. Porque a economia globalizou-se, mas a política não. Ou seja, os nossos políticos, eles não são globais, eles são locais. A política é cada vez mais local e a economia é cada vez mais global. E essa dessincronização tem um efeito, que é que muitos políticos prometem aquilo que não podem fazer, porque estão a prometer uma economia que é global e portanto não têm controlo sobre essa economia global.

E a peça fundamental entre a sincronização dessa geoeconomia e dessa geopolítica é a União Europeia. Sem isso não se consegue coordenar.

E essa descoordenação leva-me ao meu segundo ponto, que é pensarmos juntos entre aquilo que foi o passado, aquilo que é o presente e aquilo que será o futuro, dentro de uma revolução a que eu chamo a revolução digital que estamos a viver.

Mas vamos começar, primeiro, talvez um bocadinho antes de tudo o mais, pensarmos no passado, não só da Europa, mas do mundo. Muitos – sobretudo todos aqueles que estão aqui, que são jovens, há alguns que se interessam pela economia – talvez tenham lido um bocadinho sobre o que era a Europa, o que era o mundo antes de 1914. E antes de 1914, esses cinquenta anos antes de 1914, foram os anos mais abertos da economia, foram os anos mais globais da economia mundial. Isto é quase surpreendente, pensarmos que antes de 1914 a integração económica entre os países era muito superior, em certos aspetos, àquilo que é hoje. Acho que isso é o mais surpreendente.

E quando olhamos para esse passado, pensamos: mas como era essa integração? E todos estão a olhar para mim e a pensar: mas o que é que ele está a falar?

A integração era total, antes de 1914. Era uma integração económica que funcionava. Primeiro, havia algo a que chamávamos o padrão-ouro, o golden standard. E o padrão-ouro era, no fundo, uma moeda global única. Na altura só tínhamos dois países que não tinham o padrão-ouro, que era a China e o Irão. E diziam economistas, na altura - muitos deles escreveram -, que poderia viajar-se por todo o mundo, com moedas de ouro no bolso e conseguir comprar, vender, em todo o lado.

As pessoas viajavam sem passaporte. Antes de 1914, os emigrantes, quando chegavam a Ellis Island, em Nova Iorque, não tinham passaporte, não tinham papéis. Há um economista americano de Harvard, chamado Jeffrey Friedman, que dizia que a única que eles tinham que provar quando chegavam a Ellis Island, como imigrantes, era provar que não eram anarquistas, que não tinham nenhuma doença contagiosa, e que não eram loucos. Isso era um mundo totalmente diferente daquele que vivemos hoje.

E era um mundo que estava a crescer economicamente. Só que estava a falhar num ponto essencial. É que os políticos dessa altura, daqueles cinquenta anos antes de 1914, esqueceram-se de um ponto essencial. Era que… estavam tão ocupados a pensar no crescimento económico, que a integração económica global era algo de muito positivo, que se esqueceram que essa globalização que estavam a viver, essa primeira fase da globalização, não estava a distribuir a riqueza por todos.

Portanto, esqueceram-se da parte social. Deixaram de lado, não valia a pena, o mundo estava a crescer, o mundo nunca tinha crescido tanto, as condições económicas nunca tinham sido tão boas, que a parte social se iria resolver.

E depois esqueceram-se também de outro ponto que era tudo o que tinha a ver com a identidade nacional.

E o que é que acontece? De um dia para o outro, em 1914, tudo muda. E tudo muda porque a extrema-esquerda agarra tudo aquilo que eram as políticas sociais, e o facto de que ninguém estava a ter qualquer tipo de política social, e que a desigualdade era cada vez maior. E a extrema-direita ataca naquilo que era a identidade nacional.

E esse mundo aberto de 1914, acaba. Primeira Guerra Mundial, o que é que acontece? Todos os políticos criam políticas protecionistas, de fechar os países, de fechar cada vez mais o comércio entre os países, de exigir cada vez mais que cada um ficasse no seu canto.

Segunda Guerra Mundial, mais protecionismo, mais populismo, mais extremismo, e o mundo fecha-se. O comércio mundial cai, a pobreza instala-se e os populistas conseguem levar a sua avante durante tantos anos de horror na Europa. E o mundo só volta a recuperar, lentamente, a partir da Segunda Guerra Mundial. Mas o que é extraordinário é ver que, mesmo hoje, quando olhamos alguns desses parâmetros, daquilo que era a abertura do mundo antes de 1914, e hoje, o mundo ainda não é tão aberto como foi antes, nesses cinquenta anos antes de 1914.

Por isso, o que acontece a seguir à Segunda Guerra Mundial é a saída, lenta, mas em crescendo, dessa fase de protecionismo para uma fase de abertura. E o mundo abre-se, abre-se novamente durante esses anos, e os Estados Unidos e a Europa tornam-se o centro do mundo. E tornam-se o centro do mundo porquê? Eu hoje vejo muitos políticos populistas a dizer que são contra os tratados comerciais no mundo. Vejo isso em países como a Alemanha; vejo isso em países como a França.

E eu não percebo como é que é possível, hoje, alguém dizer ou afirmar que ter tratados comerciais, sejam eles com os Estados Unidos, com o Canadá, com outras partes do mundo, é negativo para o mundo. É estar a enganar as pessoas. O mundo só pode crescer se nós criarmos maiores laços comerciais. Isso é que faz crescer.

Aquilo que são hoje as exportações. A Europa é o maior exportador do mundo. Exportámos para os Estados Unidos, há um ano atrás, trezentos mil milhões de euros. E importámos dos Estados Unidos duzentos mil milhões de euros. E como é que alguém pode dizer que não é importante termos um tratado comercial entre os Estados Unidos e a Europa. Eu, sinceramente, não percebo.

Um em cada sete empregados, uma em cada sete pessoas que estão a trabalhar, hoje, dependem de termos essa abertura comercial. E então criou-se na Europa, no fundo, algo de ideológico, em que de repente os populistas acreditaram que não valia a pena termos mais tratados comerciais. Aquilo que valia a pena era fechar a Europa.

Portanto, hoje a guerra política que temos na Europa não é de esquerda ou de direita. É uma guerra daqueles que querem fechar a Europa com aqueles que querem abrir a Europa. E aqueles que querem fechar a Europa estão convencidos que vão mudar a vida daqueles que têm hoje mais dificuldades, quando a única coisa que vão fazer é prejudicar a vida desses que hoje têm dificuldades. Porque nenhum país, através da capacidade de se fechar, tem tido melhores condições de vida.

Mas a Europa, nesse crescimento a seguir à Segunda Guerra Mundial, para mim fez um erro. Quando não se deu conta que estávamos a atravessar uma nova vaga, uma nova vaga de uma revolução a que eu chamo a revolução digital e que começa mais ou menos em 1940, com a invenção do transístor.

O transístor é um bocadinho como que, eu diria, a máquina a vapor da revolução digital, que veio mudar totalmente o mundo. E nós não nos apercebemos do que estava a acontecer. E a prova disso é que, quando olhamos para trás, e olhamos há trinta anos, em 1980, a Europa representava 30% do que era a riqueza do mundo. Hoje, representa 20%. E a China, que representava 2% do que era a riqueza do mundo, hoje representa 18% daquilo que é a riqueza do mundo.

Mas depois, mais grave do que isso, é olharmos para o futuro e pensarmos: o que vai ser o futuro? E o ex-primeiro-ministro italiano, Enrico Letta, olhou e fez uns cálculos e, no outro dia, apresentou numa conferência o que seria a Europa nos próximos trinta anos. E chegou à conclusão de que a Europa, nos próximos trinta anos, não vai ter um único país no G7. Ou seja, nos sete maiores países do mundo não vai haver um único país da Europa.

A Alemanha vai estar mais ou menos em nona posição, quando olhamos para esse futuro. A França - não se se deram conta, aqueles que vão lendo as notícias internacionais -, há pouco tempo a economia da França foi ultrapassada pela economia da Califórnia. A economia da Califórnia é maior do que a economia de França.

E então Enrico Letta dizia, com piada, que na Europa só há dois tipos de países – aqueles que são pequenos e aqueles que ainda não perceberam que são pequenos. E o não terem percebido que são pequenos é o que pode leva-nos a olhar para a Europa e pensar: o que é que nós estamos aqui hoje a dizer, queremos uma Europa… o que é que os populistas estão a dizer? Queremos uma Europa que não seja grande? É que o jogo que estamos aqui a falar, mundial, é um jogo de elefantes. Depois podemos concordar e podemos discordar com determinados aspetos da globalização.

Mas a globalização é um bocadinho como um rio em que se quer pôr um dedo e parar. Ninguém vai parar a globalização. Nós temos que lutar nesse jogo da globalização com dimensão. E essa dimensão só pode ser feita se nós estivermos todos juntos – os pequenos e aqueles que ainda não perceberam que são pequenos.

E quando olhamos para os últimos dez anos, são esses últimos dez anos que me preocupam. Porque eles trazem-nos muitas lições. Primeiro, porque a Europa conseguiu viver das crises mais violentas desde a segunda guerra mundial. E essas crises mais violentas, muitas vezes, muitos de nós não olhamos para elas com atenção. Estou a falar da crise do euro, da crise dos refugiados, nem sequer estou a falar do terrorismo nem estou a falar agora do Brexit.

Mas vamos olhar para a crise do euro e pensar no que é que aconteceu na crise do euro, entre 2008 e 2012. A Europa teve uma crise que, felizmente, conseguiu ultrapassar criando novos instrumentos. Mas, quanto tempo demorou a ultrapassar essa crise? Quatro anos, para criar todos esses instrumentos. E sabem qual era a discussão, ou porque é que isso não foi feito? Nos Estados Unidos, a mesma crise, demorou menos de um ano a resolver.

Qual foi o facto que levou a isso? O facto que leva a que essa crise não seja resolvida mais rapidamente, foi simples. Foi que passámos quatro anos a dizer: mas isto é responsabilidade nacional, ou é responsabilidade da Europa? Quem é que deve atuar? Os Estados Membros ou a Europa? E a bola passava de um lado para o outro, passava de um lado para o outro, até se conseguir chegar a um consenso. E demorou-se quatro anos para chegar a esse consenso.

Portanto, é preciso perceber estes detalhes de como é que a Europa consegue, ou não, avançar para o futuro. Olhar para o seu futuro e ver como é que pode fazer, olhá-lo de uma maneira diferente para aprender com as lições do passado.

E é essa mudança que tivermos, essa capacidade ou não de mudarmos para o futuro, de conseguir ter decisões mais rápidas, que nos vai ou não deixar à frente dos outros. E porquê? Porque nós vivemos num mundo em que a revolução digital é automática, é instantânea, e o poder político é lento. E essa dessincronização de que falei ao princípio, este é o melhor exemplo dessa dessincronização.

É que os produtos, hoje, as empresas, os empresários, criam produtos de um dia para o outro, e a Europa demora anos, os países demoram anos a legislar. Demoram quatro/cinco anos a legislar. E quando acabam de legislar sobre um determinado produto, ou sobre um determinado regulamento ou sobre um determinado aspeto, muitas vezes esse produto já não existe, porque o mundo já mudou, e torna-se totalmente obsoleto.

Então vamos analisar mais em detalhe o que é que foi esta revolução digital e o que é que esta revolução digital mudou. Eu gosto sempre de contar, e penso que para aqueles que estão aqui presentes é interessante, o começo desta revolução digital e o que é que ela mudou nas nossas noções políticas e nas nossas noções de fronteiras físicas que hoje já não existem.

Há uns anos, Mario Draghi, numa grande conferência nos Estados Unidos falava sobre o conceito de soberania. E sobre o conceito do que é a soberania e o que não é a soberania. Porque, no fundo, os políticos passam a sua vida a discutir o que é a soberania e o que não é a soberania. E ele dizia que havia duas maneiras de olhar para a soberania. Uma, muito mais normativa, que é aquela que todos que são estudantes de economia ou direito sabem, de Jean Bodin, de 1500, que dizia, no fundo, que a soberania é o direito de declarar a guerra, de emitir moeda, de cobrar impostos.

Mas será que hoje esse é o verdadeiro conceito de soberania? Será que um país que não consegue fornecer aos cidadãos educação, saúde, que não tenha dinheiro para pagar aos seus funcionários públicos, é soberano? Eu tenho dúvidas. Acho que há uma visão muito mais positiva da soberania, que é a visão que nos traz a revolução digital, que é a capacidade ou não de ter e de fornecer aos cidadãos aqueles que são os serviços básicos. Um país só é soberano se conseguir pagar aos seus funcionários públicos. Ter educação, saúde, justiça, segurança para os seus cidadãos – isso é que é ser soberano.

Portanto, neste mundo em que vivemos, essa soberania só a podemos ter se a partilharmos. Ou seja, nós não conseguimos ter essa soberania se não partilharmos essa soberania. E esta soberania já não depende da geografia, já não depende das fronteiras. As fronteiras são físicas, a nossa vida, essa capacidade de fornecer aos cidadãos aquilo que eles precisam, tem a ver com a nossa capacidade de estar conectados com aquilo a que chamamos a conectividade.

E quando olhamos para a conectividade, hoje, há um grande pensador, o Parag Khanna, que diz que a conectividade, mais do que a soberania, é hoje o novo princípio organizativo da espécie humana. Napoleão dizia ao contrário, dizia que a geografia era o destino.

Hoje, felizmente, isso não é verdade. Cada um daqueles que estão aqui hoje, podem fazer empresas, podem criar empresas que estão em Portugal mas estão a trabalhar para todo o mundo. A Farfetch nasceu em Guimarães, a Zara nasceu em Arteijo, uma vila na Galiza, em Espanha, com trinta mil habitantes. E, portanto, o mundo mudou radicalmente. De um mundo em que se falava de soberania, de fronteiras físicas, para um mundo em que a conectividade é o essencial. Se não estivermos conectados não existimos.

E temos, no fundo, hoje, a prova disso. O que são as fronteiras físicas, hoje, alguém tem uma ideia? O que são as fronteiras físicas que temos hoje no mundo? Quinhentos mil quilómetros, menos de quinhentos mil quilómetros de fronteiras físicas. Temos mais de um milhão de quilómetros de cabos de internet no mundo. E são esses cabos que definem e que vão definir as fronteiras do futuro.

Os franceses traduziram digital por "numérique” - e eu tenho uma costela francófona – e acho muito mais interessante, e acho que os portugueses acabaram por ficar com a palavra em inglês, e muitas vezes, falando com estudantes, as pessoas não se dão bem a noção do que quer dizer digital. Digital quer dizer numérico, quer dizer 0 ou 1.

E esse princípio do 0 e 1, o princípio de que podemos digitalizar tudo, foi essa grande revolução que começa em 1940 nos Estados Unidos, com a criação do transístor. Mas a criação do transístor trazia uma grande lição, trazia uma primeira lição. E eu queria-vos deixar aqui três grandes lições da economia digital.

A primeira que trazia, essa criação do transístor, é que o transístor foi criado num laboratório, num momento em que pessoas de várias disciplinas se juntaram para criar esse transístor. Até aí, as invenções, as inovações eram feitas no centro de uma disciplina. Eram feitas por uma só pessoa, numa só universidade, num só sítio.

E o transístor precisava de pessoas que soubessem de química, que soubessem de física, mas também pessoas que soubessem aquilo a que os americanos chamam tinkering , que sabiam trabalhar com as mãos. Porque era preciso, num espaço muito pequeno, conseguir colocar aqueles fios, aqueles princípios físicos, químicos, para conseguir ter o transístor.

E isso veio transformar o mundo na inovação. Veio dizer que a inovação e a invenção já não vinham só de um campo. Aliás, a história mais interessante que gosto de contar sobre isso tem que ver com algo muito recente.

Todos conhecem a teoria da relatividade, e Einstein, quando fez essa teoria da relatividade, fez a teoria da relatividade sozinho. Aliás, ele escreve em 1905, entre 1905 e 1915, mais de dez artigos científicos sozinho, em que mudou o mundo, sozinho. Há um ano atrás, conseguiu-se provar que muitas das teorias de Einstein estavam exatas e eram corretas, através da experiência que todos ouviram falar das ondas gravitacionais. O Einstein dizia que havia uma noção de espaço/tempo em que havia uma deformação que era feita nas ondas e que havia como que uns altos e baixos nessas ondas – mas nunca ninguém tinha conseguido provar. Essa capacidade de provar que Einstein tinha razão foi um artigo que foi assinado por mil cientistas de países diferentes. E de áreas muito diferentes, nem todos eles eram físicos – eram químicos, eram biólogos, eram pessoas de vários campos que conseguiram trazer essa reflexão e que conseguiram provar que Einstein estava correcto.

E isso mostra que, hoje em dia, mais do que tudo - e sobretudo na educação, portanto naquilo que hoje estão aqui a fazer e que vai ser o seu futuro –, vocês não se agarrem a estar a estudar só na vossa área. Não se agarrem a pensar que querem ser só advogados, ou querem ser arquitetos, ou querem ser engenheiros. Vão ter que ser de tudo um pouco. E aqueles que conseguirem passar mais rapidamente de uma disciplina à outra – escrevam o que vos digo – são aqueles que vão ter maior sucesso. Aqueles que souberem ir da arte para a ciência, aqueles que souberem um bocadinho de direito mas também sabem de economia, aqueles que sabem um bocadinho de física, mas também sabem de química e de biologia. Esses são aqueles que vão ser os vencedores do futuro.

E aquilo que eu gosto de estar aqui hoje convosco é que mostra que, naquilo que fazem e naquilo que é o vosso futuro, já decidiram que não querem estar só na vossa disciplina. Gostam de política – vieram aprender sobre política. Vieram aprender como é que se faz política, o que é a política, o que é que os políticos fazem. E, mais do que nunca, precisamos de pessoas como aquelas que estão aqui hoje.

Essa colaboração nas interseções, ela vai ser essencial para o futuro do mundo. Aliás, ela já é essencial hoje no futuro. Há uns tempos atrás, visitei em Israel um centro chamado Weizmann Institute, que é um dos maiores centros científicos do mundo, onde temos mais de cem bolseiros europeus. E encontrei um homem, que era um biólogo, que estudou toda a sua vida clorofila. E descobriu uma das curas para o cancro da próstata. Ou seja, um biólogo a estudar clorofila descobre uma cura para o cancro da próstata. E isto mostra que é esse o futuro. O futuro é estar entre estas diferentes redes de saber.

Depois, o segundo ponto é que, durante muitos anos, antes da revolução digital, como é que acontecia a inovação? A inovação acontecia de uma maneira muito simples. A inovação acontecia… chegava-se a uma empresa, o chefe da empresa dizia: vamos inovar. Encontrava quatro ou cinco, criava uma unidade de inovação e depois dizia vamos encontrar um novo produto. Essas pessoas inventavam um novo e depois empurravam esse produto para as pessoas. Punham à venda e depois quem gostasse, gostava, e quem não gostasse não comprava.

O mundo digital veio trazer algo totalmente diferente, porque, no mundo digital, o contacto entre o consumidor e o produtor é imediato. E aquilo que nós vemos hoje é que são os próprios consumidores, sãos os próprios utilizadores que estão a definir aquilo que é inovação, que estão a definir o que é que são os produtos do futuro. Ou seja, o produto já não é definido na empresa, ele é definido através daquele que é o utilizador. E essa diferença é de tal ordem forte que aquilo que nós vemos hoje é exatamente, em todas as disciplinas, essa mudança radical.

Há um ano atrás entreguei um prémio que se chamava "O prémio do paciente inovador”. Ou seja, na saúde, o utilizador é o paciente. E entreguei esse prémio, em Lisboa, a um homem extraordinário. A um inglês que, quando tinha trinta anos, era engenheiro mecânico, o médico disse-lhe que ele estava a seis meses, basicamente, da morte. Porque tinha um síndroma, a que se chama síndroma de Marfan, que tinha uma veia, a veia aorta, que estava completamente destruída e que iria rebentar nos próximos seis meses.

E ele chegou a casa e pensou "não posso morrer daqui seis meses. Eu acho que isto é uma coisa que vou ter que descobrir”. O médico disse que não havia cura, não havia capacidade de fazer absolutamente nada. Então este homem, chamado Tal Golesworthy, que é um britânico, contacta uma série de amigos engenheiros e decidem tentar perceber o que podiam fazer para resolver um problema que não era só médico. Primeiro era um problema dele; e depois era um problema também de engenharia. E constroem uma válvula artificial que consegue, hoje, salvar a vida a centenas de pessoas. Aliás, eles tinham um número: já salvaram a vida a mais de duzentas pessoas.

Através do quê? De uma colaboração entre um engenheiro mecânico e um médico. E através do quê? Através de um utilizador que vai resolver o problema daquele que é o fornecedor, ou que é o produtor, no caso da saúde, o médico.

E essa mudança é uma mudança que nós vemos em tudo aquilo que estamos a fazer hoje. Estamos a fazer hoje e estamos a ver essa mudança constante de ser o utilizador que está realmente a mudar aquilo que é o futuro. Quando vocês estão na vossa casa, que estão a mudar e estão a construir os vossos apps no computador, que estão a fazer youtube, estão a mudar a maneira como o mundo está a funcionar.

E a Europa tem que agarrar essa oportunidade. E essa oportunidade é de tal ordem grande que me leva a este terceiro ponto da revolução digital que gostava de deixar aqui hoje para discussão. O primeiro é o utilizador ao centro, o segundo é esta colaboração nas interseções, mas o terceiro é o big data.

Tudo e toda esta revolução digital está baseada numa quantidade enorme de informação com que hoje vivemos. E quando olhamos para aquilo que vai ser o que chamamos a internet das coisas, que eu diria que é a internet de tudo, ou seja, a internet de estarmos conectados diretamente, vamos descobrir que o mundo vai mudar. Que as profissões já estão a mudar e que nós ainda não nos apercebermos; não só pelas interseções, não só pelo utilizador estar ao centro, mas também porque a quantidade de informação nos levará a resultados muito melhores. Só que estamos no princípio.

90% de toda a informação criada no mundo, foi criada nos últimos dois anos. Se vocês olhassem para o bolo da informação, o que nós chamamos o data , 90% disso foi criado nos últimos dois anos. E será a capacidade de pôr esta informação conectada, a comunicar e a tomar decisões que vai fazer essa diferença. Até agora eramos nós que tomávamos as decisões. Agora vai ser como é que estes dados que comunicam entre si que tomam estas decisões. Há pouco tempo fez-se uma experiência interessante nos Estados Unidos que era pôr num centro os maiores médicos especialistas em cancro do pulmão e, através de radiografias e de scanners, detetarem cancro do pulmão em determinados doentes. Fizeram duzentas, ou um número grande, de radiografias. E esses médicos, basicamente, olharam para tudo. E depois pôs-se a máquina. Pôs-se a máquina naquilo que hoje chamamos o deep learning , que é pôr todos estes dados conectados, todos estes dados a funcionar.

Os médicos falharam em 7% dos casos e a máquina não falhou. Portanto, o ponto aqui é como é que vai ser esta relação entre a máquina e o homem. E como é que nós vamos conseguir criar esses novos empregos do futuro e como é que vamos conseguir criar essas profissões do futuro. E essas profissões do futuro vão ser muito diferentes do passado. Porque o que importa no futuro, quando olharem… vocês hoje quando olham para a informação, o que é que é importante hoje na informação? É saberem a informação? Ainda estamos no método em que vamos para a escola e sabemos de cor e depois chegamos ao exame e temos que dizer tudo de cor? Será que isso hoje importa? Não, isso é o século passado.

O ponto é como é que nós relacionamos essa informação e como é que fazemos a ligação entre essa informação. E o big data vai ser essa ligação entre a informação. E essa ligação entre a informação vai-nos dar os resultados que vão ser muito diferentes do passado. Mas a boa notícia, é que ao contrário do que muitos pensam, e talvez agora alguns que me estão a ouvir estão a pensar: então no futuro o que é que vai ser o ser humano? O ser humano não vai ser nada.

Ao contrário. O ser humano vai ser cada vez mais importante. Mas ele vai ser mais importante não por aquilo que sabe, mas por conseguir ter essa capacidade de ligação da informação. E é por isso que hoje aquilo que nós vemos é que a informação, aquilo que vai ser toda esta parte do data , vai ser um commodity , porque tudo já vai estar digitalizado. Nós demorámos dez anos, quinze anos a digitalizar o mundo. Aliás, o facto de 90% de tudo o que é informação já estar digitalizada mostra isso.

A questão agora vai ser: mas o que é que o ser humano vai fazer? O ser humano vai ter essa capacidade de ser mais do que a máquina, sempre. Através do quê? Através da experiência. Através do contacto humano, através das redes que cria. Através dessa experiência humana.

Porque essa experiência humana, ela nunca será substituível. Nós nunca vamos conseguir construir um mundo em que vamos conseguir substituir essa experiência. E por isso quando eu comecei, quando eu há muitos anos atrás fui fazer o programa Erasmus… e ontem falávamos no Colégio de Comissários o que é que temos de fazer pela Europa, e eu contava e dizia que, muitas vezes, nós fazemos projetos na Europa que os Europeus muitas vezes não sabem o que são. Nem sabem o que estamos a fazer. E porquê? Porque não lhes toca diretamente.

Das minhas recordações de há muitos anos, a única coisa que eu guardo é uma fotografia que eu tenho, em que estou eu com um cheque de dezasseis mil francos franceses – que seriam, hoje, dois mil euros, ou uma coisa assim – para eu viver durante um ano em França. E essa recordação daquilo que a Europa tinha feito por mim, esse cheque que me ia ajudar a viver, mal, porque não se conseguia viver com tão pouco, já naquela altura, durante um ano. Era só pagar o quarto, e pagar as despesas e poder sair um bocadinho e ir almoçar, não dava. É com esse tipo de projetos que eu acho que o mundo digital nos vai ajudar a fazer essa ligação entre a Europa e as pessoas.

Por isso, gostava de acabar aqui esta primeira parte, antes de chegarmos às perguntas, a dizer-vos que o maior perigo que vivemos hoje é não percebermos que esta revolução digital só pode ser feita com abertura, só pode ser feita naqueles que acreditam que o mundo deve ser aberto, e que o mundo não deve ser fechado, e que o mundo aberto é aquele que nos trará esses resultados.

Um presidente francês, o François Mitterrand, dizia que o nacionalismo é a guerra. E eu diria que o protecionismo e o isolacionismo são, sem dúvida, aquilo que será o pior para um potencial conflito entre todos nós para o futuro. Não nos podemos deixar levar… E a Europa vive um momento difícil, um momento em que muitos não acreditam que é essa abertura que nos trará o futuro e não fecharmos a Europa.

Os extremistas, os populistas, o que eles no fundo querem, querem solidariedade mas depois não querem responsabilidade. E abominam esta ideia da conectividade, porque ela traz maior liberdade individual. Porque com este mundo digital, todos aqueles que estão aqui hoje, podem estar hoje aqui, mas podem estar a fazer uma empresa que está a vender produtos nos Estados Unidos, estar a vender produtos noutras partes do mundo.

No fundo, aquilo por que nós temos que lutar, e aquilo que eu vos deixo por mensagem, não é mais do que lutem por essa Europa aberta. Porque sem essa Europa aberta não teremos futuros.

O Alberto Alesina, num livro chamado "O Futuro da Europa”, dizia neste livro – eu gostava só de terminar com este ponto e depois passamos às perguntas e respostas –, dizia: os políticos, porém, em vez de trabalharem juntos para resolver estes problemas, tranquilizam os eleitores prometendo proteção. Proteção contra as importações asiáticas, proteção contra a diversidade cultural que vem com a imigração, proteção contra a tecnologia. A palavra proteção – dizia ele - pode ter uma conotação positiva. Proteção dos mais fracos, proteção contra a agressão, proteção contra a adversidade. Mas o tipo de proteção a que nos referimos é de natureza diferente - é a proteção dos que estão dentro do sistema, dos que estão bem relacionados, à custa daqueles que beneficiariam com mais concorrência. É a proteção dos poucos contra os interesses dos muitos.

A Europa com que queremos sonhar é exatamente o contrário. É uma Europa de solidariedade, de conectividade, que liga este mundo físico ao mundo digital. É uma Europa que defende o interesse dos muitos, daquela que é a maioria invisível, daqueles que são os que estão sentados aqui hoje, contra os interesses daqueles que se aproveitam do sistema.

Muito obrigado.

[Aplausos]

 
Simão Ribeiro

Muito obrigado, Eng.º Carlos Moedas. Primeira pergunta do dia, Tiago Lucas, Grupo Rosa.

 
Tiago Lucas

Bom dia a todos. Os meus cumprimentos, em nome do Grupo Rosa, ao senhor engenheiro pela presença, ao nosso Comissário que tão bem nos representa dentro da Comissão.

Há uns tempos atrás, Martin Schulz, numa entrevista, dizia que a Europa é uma bicicleta com os pneus furados. Dias depois, após o Brexit, dizia que está na altura de começarmos a pensar na reforma da União Europeia e que alguma coisa tem que mudar. Eu concordo com Martin Schulz.

Martin Schulz também, depois de ter dito isso, mais à frente, apresentou uma pequena proposta que passava, no fundo, por uma espécie de governo europeu eleito pelos Estados-Membros. Tivemos essa proposta, depois tivemos outra do representante dos Liberais e Democratas, do grupo parlamentar europeu, uma série de propostas que eles considerariam importantes para a reforma da UE.

Nesta linha, e neste comboio de falar da reforma da UE, e de achar que alguma coisa de facto tem de mudar, o Grupo Rosa coloca a questão de quais são as prioridades ou qual é o plano para a reforma da UE?

Na questão do TTIP que falou, e muito bem, de facto é necessário e faz todo o sentido falar nesta aliança entre a Europa e a América. É de facto um caminho para o futuro da inovação, tecnologia, do digital, que é o tópico que nos traz aqui. Nós sabemos, e ficamos a saber por estes dias, que a França vai retirar o apoio, ou está a retirar o apoio ao TTIP dentro da União.

E a pergunta que nós deixamos é: qual é o futuro para este acordo? Será que vamos ter TTIP? Será que, de facto, é possível ambicionar com este tratado que, de facto, tem um conjunto de vantagens enormes, vantagens essas que não foram projetadas para a opinião pública, tivemos muita desinformação, muito lixo informativo à volta do TTIP.

E um último tópico para aquilo que pode ser o futuro também da UE. A crise dos refugiados é provavelmente um dos tópicos mais críticos da ordem do dia. Nós hoje temos um momento crítico da União Europeia, tal como tivemos em 2010 com a questão da crise das dívidas soberanas. E nessa altura nós ficamos a saber das fragilidades da União. Será que o momento dos refugiados, aliás, a questão da crise dos refugiados, será provavelmente um momento de reforço da União? Ou um momento de ultrapassar aquilo que são as fragilidades desta União?

Obrigado.

 
Carlos Moedas

Muito bem, muitas perguntas, vou tentar não ultrapassar três minutos, como disse ali o senhor eurodeputado.

Talvez começar aqui pelo ponto do TTIP. O ponto do TTIP, que é um ponto muito importante para todos nós. Fez um comentário sobre aquilo que foi dito, não só em França mas também na Alemanha. Agora, temos que ser claros sobre quais são os poderes e o mandato que temos. A Comissão Europeia tem um mandato de todos os Chefes de Estado e de Governo para negociar o TTIP. Esse mandato foi feito por unanimidade. Portanto, se os países querem retirar esse mandato, também o têm que fazer por unanimidade.

E a Europa não é só França, não é só Alemanha, não são só determinadas visões dos países mais centrais ou maiores. São importantes mas não são tudo. Aquilo que estamos a fazer neste momento é continuar. Continuar com as negociações, continuar com negociações que são muito duras. Porque são negociações, exatamente, para conseguir ter a mesma, eu diria, os mesmos standards, a mesma qualidade, nesta negociação entre a Europa e os Estados Unidos.

Ao contrário do que muitos dizem sobre o TTIP e sobre o Tratado Comercial, que vai diminuir aquilo que são os nossos regulamentos, a nossa capacidade… Não, não é absolutamente nada disso. É exatamente o contrário. Tem sido essa a negociação; é encontrar um tratado equilibrado. E esse tratado é importantíssimo para o nosso futuro. E é importantíssimo do ponto de vista de que o que a Europa mais precisa é de capacidade de exportação, é de exportar mais. Os empregos ligados à exportação, todos sabemos, são mais bem pagos, têm melhores condições. Portanto, é importante continuar.

Ontem, no Colégio de Comissários, falámos exatamente sobre essa vontade, e essa continuação, e essa energia que vamos ter de continuar naquilo que é o TTIP. Obviamente que os países podem falar. Não ajuda, não ajuda, no meio das negociações haver barulho e haver países que dizem isto ou aquilo porque isto é uma missão e é um mandato que foi dado a uma Comissária em particular. Eu diria que é, de certa forma, teatro político, mas não muda nada daquilo que está a acontecer. O futuro depois veremos, mas é importante continuar. Temos o tratado com o Canadá, que é um tratado importantíssimo, e que é um tratado que é o melhor tratado que podíamos ter de comércio, entre a Europa e o Canadá. E depois o TTIP, e portanto vamos continuar nesse ponto.

Depois o segundo sobre os refugiados. Eu acho que os refugiados são um excelente exemplo daquilo que estávamos a falar sobre a solidariedade. Porque, muitas vezes, não nos damos conta quando vemos que um país como a Alemanha recebeu um milhão de refugiados. Nós temos que ajudar a resolver esse problema e temos que o fazer de forma solidária. Mas depois, quando a Europa o tenta fazer de forma solidária, cada país diz: não, eu não quero, eu quero isto, não pode ser… E não há realmente essa capacidade de ter uma visão solidária sobre esse tema.

Hoje vivemos num mundo em que há sessenta milhões de pessoas que estão no mundo à deriva, de um país para o outro, que não têm condições. E os refugiados não é uma questão de termos ou querermos ser solidários. Nós temos que ser solidários. Porque a História traz-nos exatamente a prova de que, quando não fomos solidários, os erros que cometemos.

Na Segunda Guerra Mundial, os países da Europa, e dos Estados Unidos e de outras partes do mundo não foram capazes de ter essa solidariedade. E não podemos cometer esse erro porque esse erro levou a milhões e milhões de mortes. Portanto, temos que ser solidários e temos que arranjar essa solução. E uma Europa de quinhentos milhões tem que arranjar essa solução. Estamos a falar de, obviamente, um grande número, mas é um número em que a Europa tem que conseguir essa solução.

E depois sobre o que são os grandes temas para o futuro da Europa. Eu acho que o grande tema para o futuro da Europa é conseguirmos manter-nos unidos num período difícil e conseguirmos adaptar-nos a esse futuro através de um pilar de solidariedade, em que vamos ter cada vez mais a necessidade de mostrar que sem essa solidariedade não conseguimos. E essa solidariedade não é só nos refugiados, é também, por exemplo, nas contas públicas. Quando um país não respeita as contas públicas, cria externalidades negativas a outro país que as cumpre. Ou seja, temos que cumprir, temos que nos habituar a cumprir, para pertencer ao clube e para podermos ter a solidariedade dos outros.

Portanto, essa parte da solidariedade, eu diria que é o pilar em que nos devemos focalizar ao nível político. E o segundo pilar foi este que aqui vos deixo hoje, que é o pilar da conectividade, o pilar do digital, da inovação na era digital, que é essencial para o nosso futuro. Sem isso, sem termos esse pilar da conectividade, sem, por exemplo, não termos que ir para um país, e olhamos para a internet e ficamos bloqueados porque não podemos ver um filme que víamos noutro país da Europa, não faz sentido nenhum. Não termos acesso à informação nos países da Europa da mesma maneira que temos em todos os países, não faz sentido. Temos que ter essa capacidade de olhar e de apostar nessa Europa digital, que é uma das grandes prioridades do presidente Juncker, que é esta Europa digital única em que trabalhamos.

 
Simão Ribeiro

Muito obrigado. João Vieira, Grupo Verde.

 
João Vieira

Olá, bom dia. A nossa pergunta é: a Europa vai ser ultrapassada no G7 daqui a trinta anos, por que razão? E quais são os fatores que influenciam esta situação?

Obrigado.

 
Carlos Moedas

Aquilo que nós vemos é que as outras partes do mundo estão, por um lado, a crescer com maior rapidez, a criar riqueza, apesar de virem de níveis mais baixos. Quando falamos da China ou doutras partes do mundo, eles vêm de um patamar mais baixo mas estão a crescer a uma velocidade maior. E essa velocidade maior, na economia, é como se nós estivéssemos todos a correr numa pista, e a nossa capacidade é de correr sempre um bocadinho mais rápido do que os outros. Aqueles que vêm de um patamar mais baixo, eles até podem correr mais rápido, mas não os podemos deixar ultrapassar aquilo que é a nossa velocidade de cruzeiro.

E o que está a acontecer é que a Europa está a reduzir o seu crescimento, e portanto estamos a tentar agora voltar a uma fase de crescimento. Os números vão mostrando que sim, que estamos melhor, mas continuamos com crescimentos abaixo dos dois por cento. Esses países estão com crescimentos a cinco, a sete, a oito, a dez por cento. Portanto, a uma dada altura vamos ser ultrapassados, se nada fizermos.

A mensagem que eu deixo é: sim, se nada fizermos, vamos ser ultrapassados. E essa nossa capacidade de, por exemplo, aproveitar a revolução digital para ultrapassar os outros, é única. Porque nós temos tudo, nós temos o conhecimento, temos as empresas, temos os jovens que hoje têm um nível de educação superior a outras partes do mundo, que nos podem fazer voltar a acelerar esse crescimento e aí não seremos ultrapassados. E aí, o exemplo que eu estava a dar, dentro de trinta anos estaria errado, se nós, através da revolução digital, conseguíssemos patamares de crescimento superiores àqueles que temos hoje. Mas se continuarmos a criar barreiras, a fechar fronteiras, a criar todo este protecionismo em que estamos a viver hoje, de certeza que não vamos conseguir acelerar o crescimento.

 
Duarte Marques

Muito obrigado, senhor Comissário. Dava a palavra ao Hugo Martins, do Grupo Cinzento.

 
Hugo Martins

Bom dia a todos. Gostaria, antes de mais, de agradecer a sua presença e podermos privar com você e toda a sua experiência que nos pode transmitir.

Efetivamente, hoje em dia vivemos na era digital. Esta revolução, que se encontra em curso, fez acelerar o ritmo de vida, a facilidade de circulação da informação, bem como muitas outras vantagens. No entanto, uma questão que nos preocupa enquanto cidadãos é que, quanto maior for a presença das chamadas tecnologias da informação no nosso quotidiano, maior será a exposição às gigantes tecnológicas.

A questão propriamente dita é a seguinte: isto não terá consequências na diminuição da nossa privacidade, na nossa liberdade pessoal, em termos de controlo do quotidiano?

Obrigado.

 
Carlos Moedas

São várias perguntas interessantes. A primeira, na questão da privacidade. Nós ainda estamos muito no princípio desta revolução digital. Portanto, nós ainda estamos num ponto em que nós não sabemos bem o que vai ser esta revolução digital, e portanto não estamos ainda protegidos de uma forma em que deveríamos, em termos de ciber security , em termos da nossa proteção dos dados, em termos da nossa privacidade.

E isso vai ter que se construir, mas vai ter que se construir de uma maneira em que não se prejudique o crescimento dessas tecnologias. Ou seja, nós temos que criar legislação – o que estamos a fazer dentro deste projeto do mercado digital – que consiga, por um lado, deixar que a inovação crie novos produtos, mas, por outro lado, não travar esse crescimento através de, por exemplo, leis que não façam sentido.

Há muito anos atrás, contava-me um ministro inglês que quando os primeiros carros chegaram ao Reino Unido, a Londres, passou-se uma lei – vocês podem confirmar na internet – que era uma lei que dizia que à frente de cada carro, estamos a falar do princípio dos carros, à frente de cada carro deveria haver um homem com uma bandeira para avisar que vinha aí um carro, para não haver acidentes. E no mundo digital ainda estamos muito nesse princípio, ainda estamos um bocadinho talvez a legislar para ter um homem no carro a avisar que há um carro. E daqui a trinta anos vamos pensar: mas que estupidez, isto não fazia sentido nenhum.

E portanto temos que ter uma legislação que proteja, porque a importância da proteção para o cidadão, e essa garantia, é importantíssima, mas que não nos coíba de avançar no futuro. Isso é essencial.

Depois, em relação àquilo que vai ser o futuro nesta parte digital, e que vai ser não só a parte da proteção mas a parte de abrir o mundo. Essa abertura do mundo vai ser que tudo vai passar a ter, um bocadinho como nós… hoje em dia, a eletricidade é o quê? A eletricidade… todos temos eletricidade. Não faria sentido não ter eletricidade. E o mundo digital ainda não é bem como a eletricidade. É alguma coisa que as empresas têm como algo mais. Daqui a vinte ou trinta anos, ser digital vai ser como ter eletricidade. Portanto, já não vai diferenciar ninguém.

Hoje ainda nos podemos diferenciar, dizendo: vou ter uma empresa digital que vai ser melhor do que as outras. Eu vou ganhar e com isso vou ser melhor do que os outros. E aquilo que eu contava há pouco sobre a inteligência emocional da experiência, da vivência entre os outros, ainda termos essa experiência que nunca pode ser substituída, é exatamente isso.

É que daqui a vinte anos não é ser digital que vos vai diferenciar. Aquilo que vos vai diferenciar é ter capacidade de ser mais do que o digital, que é ter essa experiência, essa vivência que só o ser humano pode ter para criar produtos diferentes. Portanto, focalizem-se não só no digital, mas qual vai ser a sua diferenciação ou a diferenciação daquilo que vão ter no futuro, que é viver, por exemplo, em ambientes diversificados. Viajar, conhecer pessoas de outros mundos, de outras religiões, com outras culturas. E é essa mistura de maneiras diferentes de pensar que vai conseguir, ou não, que a empresa que vão fazer ou a atividade que vão fazer seja melhor do que os outros.

 
Duarte Marques

Muito obrigado. Ricardo Rio, do Grupo Bege.

 
Ricardo Grilo

Bom dia. Antes de lhe colocar a questão gostava de lhe responder ao desafio que colocou, ou seja, se nos sentimos europeus.

Eu acho que há uma grande facilidade em dizer que sim quando falamos do ponto de vista formal. Mas se olharmos do ponto de vista identitário, nós, enquanto Grupo Bege, temos uma grande dificuldade em dizer que somos europeus. Isto porque o conceito de cidadão, de dignidade humana, que é um dos grandes pilares da União Europeia e da Europa, do ponto de vista mais genérico, é aquilo que, de facto, define os europeus. Mas nós achamos que existe um esbatimento desse conceito, face a muitas variáveis, e uma das apontadas atualmente tem a ver com uma espécie de subjugação à economia. Portanto, nós também acreditamos que a Europa digital pode ser uma resposta a um reforço do conceito de cidadão e pode ajudar os europeus a perceber quais são os traços identitários que nos torna, de facto, europeus, e que nos distingue em relação a outros povos.

E a nossa pergunta surge também um bocadinho neste seguimento, ou seja, em maio do ano passado, a Comissão Europeia anunciou a vontade de lançar um projeto de um mercado único digital. E aquilo que nós perguntamos é, mais de um ano depois e quase a terminar o ano, em que fase se encontra este mesmo projeto, e se este projeto pode ser, de facto, essa resposta para ajudar os europeus a perceber se são europeus e porquê?

E, também, se pode ajudar os países, por exemplo, a tornarem-se mais competitivos no que diz respeito à sua capacidade para captar empresas digitais de grande sucesso. Porque existe também uma argumentação que é: tudo o que são empresas digitais de sucesso parece estarem fora da Europa, ou pelo menos maioritariamente fora da Europa, como é o grande caso de Silicon Valley , na Califórnia.

É esta questão, que são duas, na verdade, que lhe pedia para nos responder. Obrigado.

 
Carlos Moedas

Muito bem. Vem também um bocadinho ao encontro da pergunta aqui da frente sobre os gigantes, a que eu depois entretanto não respondi bem. Agora vou aproveitar este ponto.

Quando nós olhamos para a Europa, nós temos a maior capacidade industrial do mundo. Temos as maiores indústrias… se vocês vão à Alemanha, ou se vão a países como França, temos tecidos industriais da indústria tradicional muito melhores do que nos Estados Unidos. Muito mais avançados. A nossa indústria de ponta, ela é mais avançada do que noutras partes do mundo. Mas deixámo-nos ultrapassar na parte digital.

Mas o mundo vai ser esta fusão entre o digital e o físico e, portanto, aquilo que nós vemos hoje é que essas empresas digitais que, durante muitos anos, faziam apenas o quê? Faziam algo no mundo digital, criavam plataformas digitais. Elas hoje estão a entrar na indústria tradicional. Quando uma Tesla quer fazer um carro, quando uma Google entra no mercado da energia e cria o Nest, que é um termostato inteligente; o que hoje está a acontecer, nesta revolução digital, é que passámos primeiro dez anos a fazer – e o livro que vos aconselhava do Steve Case conta isso muito bem – a fazermos a infraestrutura da internet; depois tivemos uma segunda fase em que construíamos sobre a internet, ou seja, fazíamos determinadas aplicações sobre a internet; e agora estamos numa terceira fase que é a internet a entrar na nossa vida e nas nossas indústrias.

E a Europa tem uma oportunidade extraordinária. É que nós temos essas indústrias. E, portanto, temos os Estados Unidos a virem do digital para o físico, e nós a virmos do físico para o digital. E essa é a oportunidade que temos naquilo que os alemães chamam a indústria 4.0 que não é mais do que essa integração entre o físico e o digital, de criarmos essa oportunidade e de sermos nós líderes nessa ligação entre o físico e o digital. Porque nós temos essa capacidade e temos essas indústrias. Mas temos que ser capazes de dar essa volta e de aceitar a revolução digital.

Agora sobre os grandes gigantes. Não sei se vocês se aperceberam que ontem houve uma grande decisão da Comissão Europeia, uma decisão inédita da Comissão Europeia, que veio trazer uma multa que pode ascender a mais de dezasseis mil milhões de euros à Apple. E essa multa traz várias lições.

A primeira é que a concorrência tem que ser leal. E ninguém pode concorrer simplesmente porque não paga impostos. E aquilo que a Comissão vem mostrar é que uma determinada empresa – e há outras que estão sob investigação – vem para o mercado europeu e criam estruturas onde não pagam impostos. A minha colega da concorrência dizia ontem que achava muito estranho que uma empresa que recebe em casa, ou na empresa, um papel a dizer que vai pagar 0,05% de impostos, não peça uma segunda opinião. E que no segundo ano receba outro papel a dizer que vai pagar 0,005% de impostos, não peça uma segunda opinião. Algo está errado.

Portanto, temos que criar aqui o que os americanos chamam um level playing field , ou seja, para que as nossas empresas europeias possam avançar, elas têm que estar a concorrer em pé de igualdade. E pé de igualdade é pagar os mesmos impostos. E muitos desses gigantes têm tido no mercado europeu a possibilidade de ter vantagens fiscais que não criam uma concorrência justa e leal. Quando uma empresa europeia se instala nos Estados Unidos não tem esse tipo de vantagens.

Portanto, temos que criar também aqui uma equidade, uma justiça que é importante para o futuro. E a decisão de ontem mostra a capacidade e a força da Comissão Europeia, neste caso a Comissária da concorrência, de tomar estas decisões.

É engraçado que a outra pergunta que fazia era sobre o digital e o ser europeu. Eu acho que aquilo que nós vemos, cada vez mais, na Europa – e é por isso que a minha vinda aqui é importante – é que os melhores embaixadores que nós temos da Europa são vocês, são os jovens. São os jovens que acreditam mais na Europa. E eu acho que os jovens acreditam mais na Europa porque os jovens já não veem essas fronteiras. O digital vem tirar as fronteiras.

Para um jovem é muito difícil vender o conceito de fronteira física, porque ele não o percebe. Quando eu fui para Bruxelas, e levei os meus filhos, e a minha filha de quinze anos chorava baba e ranho porque não queria ir para Bruxelas, a única coisa que ela queria era ver os filmes que via cá na internet. Para ela, isso era o mais importante. O problema dela não era um problema de fronteira física, era ter acesso àquilo que tinha. E esse acesso digital torna-nos, sem dúvida, mais europeus e também mais portugueses. Porque quando se está longe pode-se estar perto. Pode-se estar em contacto. Eu acho que o mundo digital abre essas portas.

E eu cada vez vejo mais nos jovens essa grande força de gostar da Europa porque sentem a Europa. No outro dia achei piada… Nós acabamos com o roaming , mas as forças são tão grandes que, no outro dia, ouvia na rádio em Portugal um anúncio que, afinal, o roaming não tinha acabado. Mas como é que é possível? Em 2017 o roaming vai acabar, quer dizer que a pessoa pode telefonar em todos os lados da Europa e pagar o mesmo. Isso é o que os jovens querem. Se o acesso à internet for mais fácil, isso é o que os jovens querem.

Hoje, quando muitos daqueles que fazem start-ups, fazem uma nova start-up, não estão preocupados se vão trabalhar em Lisboa ou em Paris. Vão trabalhar onde trabalharem, vão trabalhar para quem trabalharem, para quem comprar o vosso produto. E portanto isso torna-nos, sem dúvida, mais europeus.

 
Simão Ribeiro

Daniela Lourenço, Grupo Roxo.

 
Daniela Lourenço

Bom dia. Antes de mais, em nome do Grupo Roxo, gostaria de agradecer a sua disponibilidade para abordar aqui uma temática tão atual e importante para os jovens. Pegando em dois temas aqui abordados, e já muito falados nas duas últimas questões, big data e internet das coisas, e também a primeira a pergunta aqui: o que é ser europeu?

Assim, pergunto: qual seria a sustentabilidade de criar um cartão de cidadão europeu que unificasse todos os Estados-Membros?

 
Carlos Moedas

Muito bem, totalmente de acordo. Eu penso que temos que encontrar mais projetos com esse cariz. Projetos que tocam diretamente às pessoas. E essa foi a grande diferença do Erasmus. É que o Erasmus tocava a cada uma das pessoas.

Quantos aqui é que já fizeram ou querem fazer Erasmus? É impressionante… Quem já fez ou quer fazer, só para ter uma ideia. Tenho a impressão que há mais mãos no ar …

Eu acho que isso é a diferença. Quando nós muitas vezes falamos nos grandes projetos de investimento da Europa, aquilo que vamos fazer no futuro, e de criar isto… e não falamos realmente nessa capacidade de ter projetos como aquele que referia, que é ter a Europa no seu bolso.

Uma vez, nas minhas viagens por essa Europa fora, encontrei um senhor mais velho, num destes diálogos que fazemos com as pessoas, e ele dizia-me: onde é que está a Europa no meu bolso? Onde é que está a Europa no meu bolso, onde é que está o cartão da Europa no meu bolso? Onde é que eu sinto a Europa? Há bocado alguém me perguntava sobre os desafios da Europa e eu penso que esse é um grande desafio. É encontrar projetos pragmáticos da Europa que toquem diretamente no indivíduo.

Muitas vezes ouvimos dizer: investimos cinquenta milhões numa empresa, investimos cinquenta milhões em… mas será que as pessoas sentem isso? E não sentem. E isso é de grande importância. Eu não sei se será exatamente isso o que disse, mas acho que são ideias como essas, em que as pessoas sintam a Europa no seu bolso que podem fazer a diferença.

 
Simão Ribeiro

Muito obrigado. Telma, do Grupo Azul.

 
Telma Cordeiro Fróis

Bom dia, e obrigada pela atualidade do tema.

O ordenamento do território não tem tido por parte da União Europeia a atenção devida. Em Portugal, não existe ainda concertação entre instrumentos de gestão territorial a nível local, regional e nacional. Não se conseguiu ainda uma estratégia eficiente do território com um planeamento integrado de macro e micro escala. Sobretudo a partir de 1986 ocorre a dissipação de recursos e oportunidades, aliada ao desconhecimento e desinteresse dos responsáveis políticos e institucionais, mas também da população em geral.

Numa Europa que se pretende digital, em 2013 foi adotada uma alteração da Diretiva ISP. Cada Estado-Membro deve agora disponibilizar mais documentos sobre o território, em formato digital, legível e aberto. A nova realidade smart cities aposta em big data , ambicionando uma compilação inigualável da informação sobre as cidades.

Até que ponto é inteligente a aposta na concentração de informação de realidades tão descentralizadas em instrumentos de planeamento estratégico? Não se constituirá como uma medida de exclusão social, favorecendo somente os territórios que já são competitivos?

Obrigada.

 
Carlos Moedas

São vários ângulos da pergunta. Há um ângulo de que eu gosto nessa sua pergunta, que é o ângulo do big data e o território. Nós temos dos maiores projetos naquilo que é a informação em tempo real do território. Aliás, agora com os incêndios, uma das ajudas que foi dada pela Comissão Europeia foi o acesso a essa informação em tempo real do que se está a passar em todo o território.

No mundo digital, isso leva a sítios que nenhum de nós imaginou antes. Por exemplo, hoje não sei se já falam muito nos vossos círculos, aquilo que é o chamado blockchain. E o blockchain é a capacidade de termos em tempo real, não só para transações financeiras, mas por exemplo em termos de terrenos, uma capacidade a nível mundial, não ter ninguém que mande no registo onde está esse terreno. O que quer dizer que, num país em que haja um ditador que vem e de repente muda tudo, vamos ter sempre um track record ou vamos ter sempre um registo de quem era aquele terreno, porque isso ninguém consegue apagar. E o blockchain tem essa capacidade de não ter ninguém que possa destruir aquilo que é, por exemplo, um registo de propriedade, que é tão importante para o ordenamento do território.

Aquilo que nós, na Europa, estamos a fazer é desenvolver esse tipo de tecnologias, seja o blockchain , seja, no nosso programa Copérnico, da parte de análise de data. E depois partilhar com o mundo todo, porque isso não é só europeu. O maior projeto que temos a nível mundial chama-se o GEO, Global Earth Observation , e esse Global Earth Observation junta todos os países com toda a informação em tempo real. E isso tem mudado a capacidade de responder, seja a grandes desastres, de tremores de terra, de fogos, pela capacidade que termos tido de rapidamente juntar a informação e poder fornecer a informação às autoridades locais, que é essencial para o combate a estes flagelos, não só na situação da urgência, mas também na prevenção.

Mas, sem dúvida, que a parte do território – e cada vez mais as regiões contam na Europa como aquilo que são os polos de desenvolvimento – é um dos pontos com que nos preocupamos e queremos levar mais à frente.

 
Simão Ribeiro

Bruno Santos, Grupo Amarelo.

 
Bruno Dias Santos

Bom dia. O Grupo Amarelo agradece ao senhor Comissário a sua presença aqui hoje, saúda a Mesa, e eu, ao nível pessoal, queria agradecer à JSD e a todos vós, a oportunidade de participar nesta vossa experiência única.

Passando à pergunta. É um facto inegável que a revolução digital vai mudar o trabalho tal como o conhecemos hoje, e que o muda já hoje. Temos bancos a fechar balcões porque estão a passar para o digital; foi criado ou introduzido há pouco tempo o primeiro táxi com condução automática – veja-se a ironia, a Uber já está a ser ultrapassada.

E não querendo ser um Velho do Restelo, porque já tivemos outras revoluções tecnológicas e sempre nos adaptámos, sempre criámos novos empregos, o desemprego não aumentou como nessa altura se dizia que ia aumentar, queria perguntar ao senhor Comissário que preparativos podemos fazer, já hoje, para nos prepararmos para viver nesse amanhã? Não para o criarmos, mas para vivermos nesse amanhã. Como adequamos o nosso sistema educativo, como adequamos o nosso trabalho, como o fazemos hoje, como mudamos a nossa maneira de pensar, em que temos um modelo educativo de cinco anos universitários, e chegamos ao fim e já estamos desatualizados, para um mundo em que vamos ter que ter uma atualização permanente?

Muito obrigado.

 
Carlos Moedas

É um dos grandes desafios na Europa, porque nós ainda temos um sistema universitário que é muito feito através de silos e muito verticalizado. Portanto, nós ainda temos um sistema universitário em que as pessoas entram e só estudam uma determinada matéria até ficarem especialistas nessa matéria. E aquilo que se vê hoje no mundo é exatamente o contrário. Tem que haver fronteiras cada vez mais baixas entre as diferentes matérias. Ou seja, alguém deve poder começar a fazer uma primeira parte dos seus estudos em direito e depois passar para economia, se achar que gosta mais de economia. Que comece em engenharia e depois vá para biologia.

Os países que têm menos desemprego juvenil e que têm maiores oportunidades, neste momento, são os países em que essa passagem entre as várias disciplinas, os vários tipos de profissões, é mais fácil. Em que há menos barreiras. Os Estados Unidos é um excelente exemplo, em que a educação universitária é feita, em primeiros três anos, que apenas dão uma visão muito geral daquilo que é o futuro das disciplinas gerais de humanidades, por exemplo, de artes, de ciências, e as pessoas só depois disso é que vão escolher qual é a sua profissão. E isto permite muito maior flexibilidade entre as várias áreas.

Portanto, para mim a preparação melhor que podem fazer é prepararem-se para um mundo em que aquilo que pensam que vai ser a vossa profissão vai mudar, pelo menos, dez vezes, quinze vezes na vossa vida. E que vão começar por tirar um curso numa determinada áreas, depois farão trabalho numa outra área. Vão fazer trabalhos em áreas que ainda não imaginam.

E isso é a revolução digital. Porque muitas destas empresas… quando pensam numa empresa como a Twitter, nasceu em 2007 ou 2008; a Google nasceu no princípio dos anos dois mil, e ninguém conhecia o que era a Google. Hoje emprega muitas pessoas, que nunca imaginaram que aquela seria a sua profissão. E por isso, eu penso que é essa capacidade que vocês vão ter ou não de passar de um lado para o outro que vos vai fazer essa diferença.

 
Simão Ribeiro

Aleksei, Grupo Laranja

 
Aleksei Chemisov

Bom dia a todos. Sendo que o resultado do referendo no Reino Unido trouxe muita incerteza para as empresas, para a banca, e muitas, neste momento, consideram mudar a sua sede para outra cidade europeia; a banca, nomeadamente, para Frankfurt, e o ecossistema das start-ups considera seriamente mudar.

Tendo em conta que Portugal é um país fantástico, um país com provas dadas de inovação e empresas de sucesso, como referiu a Farfetch, tendo em conta que tem muitos jovens instruídos, como pode aqui confirmar, tendo em conta que Lisboa foi a cidade escolhida para receber a Web Summit deste ano, como podemos estimular que a mudança dessas start-ups seja feita mais para Lisboa, sem sermos promíscuos nos nossos estímulos, como o caso recente da Irlanda em relação à Apple.

E deixe-me ser também um bocado atrevido. Tendo em conta que a Web Summit é um evento muito importante, cujos bilhetes são muito caros, e tendo em conta que para o senhor Comissário, se calhar, é um bocadinho mais fácil aceder aos bilhetes do que para nós, jovens, deixava-lhe o desafio de na sua página do Facebook lançar um desafio para os jovens realmente interessados neste setor, e oferecer alguns bilhetes.

[Aplausos]

 
Carlos Moedas

Vamos tentar fazer aqui uma vaquinha com o senhor eurodeputado Carlos Coelho para os bilhetes.

Eu acho que a Europa é muito atrativa e tem sido muito atrativa para todas essas empresas americanas. O que tem acontecido é que essas empresas americanas depois vêm para a Europa e conseguem, de certa forma, ter uma desigualdade fiscal, e isso não está correto. E as nossas empresas europeias que vão para os Estados Unidos não têm essa capacidade e, portanto, nós temos que conseguir criar essa equidade fiscal. E isso é importante para a justiça e para a igualdade. Portanto, nós vamos ter que, no futuro, arranjar maneiras de criar essa igualdade entre as várias empresas no mundo. Não podemos viver num mundo em que há uns que pagam e outros que não pagam. Eu penso que é a raiz da sua pergunta, mas eu depois perdi-me aí um bocadinho, pedia só…

 
Aleksei Chemisov

É o caso mais português. Como podemos nós atrair para que as start-ups queiram entrar no sistema de start-ups em Lisboa, eventualmente, em vez de no de Berlim, tendo em conta que nós somos jovens com o mesmo nível de educação que os alemães. Temos a barreira linguística, neste caso, principalmente no mundo digital não é um problema…

 
Dep.Carlos Coelho

Ok, eu acho que a ideia foi percebida.

 
Carlos Moedas

A experiência que eu tenho é que Lisboa cada vez está melhor em termos dessa atração das start-ups e cada vez há mais pessoas no mundo a perguntarem-me como é que podem vir para Lisboa. Eu estive num evento de start-ups, em Berlim, e senti que aquele evento não era tão bom como os eventos em que eu estive em Lisboa.

Eu penso que Lisboa vai, sem dúvida, nos próximos anos, trazer grandes surpresas e conseguir criar aqui grandes hubs de start-ups; disso não tenhas dúvida absolutamente nenhuma.

 
Simão Ribeiro

João Coelho, Grupo Castanho

 
João Coelho

Bom dia. Eu levei aqui uma facada agora, porque a minha pergunta era muito parecida com esta,

[Risos]

mas vou tentar explorar aqui um ângulo um bocadinho diferente.

Falamos muito sobre a Europa, este contexto do mercado digital, da função digital no contexto da Europa, e eu queria trazer o foco de volta para Portugal, como o meu colega acabou por fazer antes de mim. Tendo em conta que Portugal tem uma ótima infraestrutura de internet de banda larga, conectividade, em termos de redes e telecomunicações somos dos melhores países da Europa, como é que podemos aproveitar isso para tirar partido do mercado digital, que políticas públicas é que podemos promover para tirar partido disso, e como isso é muito parecido com a pergunta anterior, o twist que eu queria aqui introduzir era se podemos aproveitar isso, de alguma maneira, para combater os efeitos da desertificação do interior no país.

Obrigado.

 
Carlos Moedas

Eu acho que no mundo digital vai haver muito menos este problema do que é o interior e o que é o centro. E isso é a grande vantagem que vamos ter para o futuro. Aquilo que vocês hoje olham como a desertificação, como viver ou não viver no centro, no mundo digital nada disso interessa. Ou seja, o mundo digital é excelente para os países mais pequenos. Porque o mundo digital… eu no outro dia visitava a Feedzai que é uma empresa não muito longe daqui, que todos os seus clientes estão nos Estados Unidos. Os clientes não fazem a mínima ideia de que eles estão em Portugal.

Portanto, aquilo que nós vemos hoje no mundo digital é que esse mundo não tem realmente fronteiras. E isso é extramente positivo para Portugal, porque antes, para se fazer uma empresa em Portugal, que tivesse um impacto mundial, era preciso começar aqui, depois montar em França, depois em Inglaterra e depois ir para os Estados Unidos. Hoje, o único sítio em que tem que se estar é o sítio onde haja o dinheiro para se montar essa empresa. Qual é o problema hoje, ainda, de Lisboa, um bocadinho em relação àquela pergunta? É não ter os venture capitalists , ter aqueles que podem pôr o dinheiro no momento certo para levar a empresa até outro patamar.

Porque é que em Boston, por exemplo, nos Estados Unidos, se criou um dos melhores sítios para investir em biotecnologia? Porque todos os venture capitalists , todos aqueles que tinham dinheiro e queriam investir, foram para Boston. E o ponto é atraí-los para Portugal. Porque se houver dinheiro, em Portugal pode-se construir e depois pode-se, imediatamente, ter os clientes em toda a parte do mundo. E isso, para mim, é das maiores vantagens que nós podemos ver em relação à economia sem fronteiras, é que esse não haver fronteiras não implica fisicamente onde é que se está.

Isso é o exemplo da Feedzai; no Porto têm uma empresa que é a Veniam, que não sei se já ouviram falar, que foram aqueles que criaram todos os transportes públicos do Porto terem spots de internet, ou seja, a pessoa pode estar no autocarro e ter internet. Cada um de nós é, no fundo, um spot de internet. Eles criaram isso no Porto, mas estão em São Francisco, estão em todo o mundo, porque estão a ser os únicos que estão a fazer o que eles chamam internet of the moving things , ou internet das coisas que se mexem. E isso tem sido feito através de uma empresa no Porto. E quando eu vou lá fora e falo na Veniam, as pessoas nem sabem se é do Porto, nem sabem se é de Portugal, mas também pouco interessa.

O que interessa é que o mercado é global para quem tenha acesso à internet. Aqueles projetos mais importantes hoje, é ter acesso à internet, mesmo nas zonas mais interiores do país. Eu acho que em Portugal deveria haver um projeto de como é que levamos até às zonas mais interiores do país internet de banda larga. Acho que isso é essencial e, em muitos sítios, isso ainda não acontece. Mas digo-vos que é muito melhor do que noutros países na Europa. Portanto, Portugal também não se pode queixar nesse aspeto.

 
Simão Ribeiro

Muito obrigado. Antes de passar a palavra ao João do Grupo Vermelho, quero informar-vos que estão abertas as inscrições para o catch the eye , talvez três questões, portanto para os três mais rápidos… Ok, está fechado.

João, Grupo Encarnado.

 
João Pedreda

Bom dia, antes de mais. A minha pergunta é uma pergunta mas duas perspetivas diferentes.

A primeira é: detendo o pelouro, no sentido mais lato, da inovação, e tendo mostrado inúmeras vezes, no passado, que apoia o aparecimento de novos mercados que previamente não tinham sido regulados, como por exemplo a Uber ou a Airbnb, como é que quer fazê-lo numa das instituições mais burocráticas da história, e o quão frustrante é que isso pode ser?

Depois, numa perspetiva mais abrangente, à procura de soluções, como enfrentar as inovações que não podem passar obrigatoriamente por um processo de integração de lacunas por analogia, principalmente quando o processo legislativo ordinário passa por um processo de codecisão que, muitas das vezes, põe duas forças que parecem quase opostas, como é o caso do Parlamento e do Conselho.

Muito obrigado.

 
Carlos Moedas

A primeira é bastante chalenger a responder. Quando nós estamos numa Europa a vinte oito, para se conseguir chegar a consensos é difícil. E obviamente que no mundo digital tem sido difícil, muitas vezes, conseguir esses consensos entre todos. Porque vivemos num mundo em que muitos políticos, o que querem, é o protecionismo do seu próprio país, criar maneiras de não ter a tal Europa. E tem sido realmente difícil.

Mas eu acho que no projeto do mercado único digital já conseguimos chegar muito longe. Por exemplo, desde tudo o que tenha a ver com o chamado geoblocking , que é como é que nós vamos conseguir desbloquear alguém que está em Portugal, vai para outro país na Europa, e depois não pode ver aquilo que via em Portugal através da sua subscrição ou que tinha pago um determinado serviço. E estamos a trabalhar para que isso não volte a acontecer, para que não tenhamos barreiras.

Aquilo que vai acontecer, e que já aprovámos, é que tudo o que tem a ver com produtos físicos, ou seja, quando estamos a vender produtos que sejam físicos, pela internet, um determinado produto que vai ser enviado de um país para outro país, que isso seja feito sem barreiras. E estamos a estudar agora com as empresas como os CTT de todo os países para que não haja diferenciações no preço. E isso tem avançado muito e penso que vai ser um dos grandes pontos. As pessoas vão poder comprar na internet tudo o que sejam produtos físicos sem ter qualquer tipo de barreira, o que hoje não é verdade. Quando a pessoa quer comprar um produto num site que seja alemão ou espanhol, depois tem dificuldades, muitas vezes, seja ao pagar mais em transporte, a pagar mais por algo que devia ter o mesmo preço.

E tudo isso tem avançado com dificuldade. A sua pergunta é boa, porque as dificuldades são sempre muitas. Mas essa é também a beleza da Europa. É essa a beleza que nós temos, que é sermos uma entidade com uma grande diversidade, e é muito mais difícil gerir na diversidade do que gerir quando somos iguais. Se formos todos de Castelo de Vide, todos pensaremos da mesma maneira. Se somos todos de Beja, também pensamos todos da mesma maneira. Quando somos pessoas de sítios tão diferentes é preciso conseguir trabalhar de uma maneira diferente. Mas quando chegamos a resultados, eu penso que eles são melhores do que se fossemos todos iguais. Portanto, essa é a esperança que eu tenho.

Essa era a primeira, e depois tinha uma segunda… desculpe lá que eu agora… ah, codecisão.

Isso é um processo que o senhor eurodeputado Carlos Coelho conhece, como eu dizia, ele é o homem que mais sabe dos detalhes da Europa, ele pode explicar no detalhe.

Eu penso que isso tem um problema de comunicação com a Europa, é que os cidadãos não percebem. Não percebem e, muitas vezes, acontecem-nos alguns pontos que são ridículos, que é: vai uma proposta da Comissão para o Parlamento, para depois ser decidida e ser falada com o Conselho, e toda a gente quer pôr o seu ponto, todos os deputados querem pôr mais qualquer coisinha. E aquilo que era uma lei que vinha limpa, que vinha com um determinado objetivo, acaba por ter uma série de mudanças que a tornam não tão boa como ela era, que a tornam mais complexa, e depois os cidadãos reclamam.

Por exemplo, quando foi agora no Brexit, muitas das coisas que apareciam na imprensa inglesa a dizer que tínhamos uma determinada lei que obrigava as pessoas a comerem bananas só de uma cor… aquele típico mito sobre a Europa. Muitas dessas mudanças não tinham sido mudanças que tinham sido uma proposta da Comissão, mas tinham sido o produto dessa discussão, dessa codecisão, entre o Parlamento e o Conselho e dessas discussões infindáveis que depois levam a compromissos que, quem os conhece e quem está lá, percebe, porque está a discuti-los, mas depois, de repente, aquilo vem à luz do dia e muitos desses compromissos podem não fazer sentido. Uma lei, quando chega a esse processo de codecisão, normalmente vai ter mais vinte ou trinta por cento de determinadas mudanças que, muitas delas, deveriam ser evitadas. Mas esse é o processo de decisão que temos na Europa, e é o processo de decisão que temos que ter porque são vinte e oito vontades diferentes.

Mas é um processo que tem que ser trabalhado e tem que ser repensado, no futuro, com calma, eu penso que são reflexões para o futuro, não são reflexões que possam ser feitas agora, porque implicavam mudanças de tratados, que são impensáveis neste momento. Mas é uma excelente questão.

 
Simão Ribeiro

Muito obrigado. Primeiro bloco, duas questões. Anyse Pereira e, de seguida, Daniel Pereira. Uma do Grupo Cinzento, e o Daniel do Grupo Verde que, tanto quanto sei, não são familiares.

 
Anyse Pereira

Bom dia. Muito obrigada, senhor engenheiro, por esta palestra. O que eu queria perguntar era: Portugal foi, com a crise, dos países mais afetados. E uma das consequências foi a redução no financiamento destinado à ciência e investigação. Segundo o FMI, Portugal é dos países que menos gasta em investigação e desenvolvimento. E se esse investimento fosse aumentado, o PIB poderia subir em até 5%. Em 2014, o PIB investido foi de 1.3, enquanto a União Europeia recomenda, pelo menos, se possível, 3%.

Percebe-se, porque a investigação e desenvolvimento implica um grande investimento do Estado e do governo. No entanto, os países mais desenvolvidos são os que mais investem em investigação, desenvolvimento, ciência, em todas as áreas, tanto nas áreas da comunicação e novas tecnologias, como nas ciências da saúde.

Então, queria saber o que é que o senhor engenheiro acha: é necessário já estar rico para investir, ou seja, é necessário ter o dinheiro para investir, ou então podemos fazer desse investimento um caminho para aumentar a riqueza. É isso.

 
Simão Ribeiro

Daniel, desculpa, antes de colocares a questão, só para informar que estamos a aceitar mais inscrições. Não prometo quantas, mas ainda são aceites.

 
Daniel Pereira

Olá, bom dia. Felizmente existem muitos apoios para apoiar start-ups na Europa e em Portugal. Mas conheço muitas outras em fase pré seed , com projetos de grande potencial de internacionalização e de inovação, que não têm capacidade financeira para desenvolver um simples protótipo para fazer uma prova de conceito, que é fundamental para conseguir convencer um primeiro investimento, business angels , e futuramente um mais avultado de ventures capital.

Que apoios ou soluções europeias existem especificamente para estes casos? E se poderia também haver uma maior aposta em incubadoras de empresas e aceleradoras no interior do país, de forma a desenvolver o emprego e o desenvolvimento empresarial.

 
Carlos Moedas

A primeira era sobre o investimento na inovação. Eu acho que pôs de uma maneira muito interessante a sua pergunta, porque é exatamente isso, eu acho que temos que investir para conseguir ser mais ricos, e não o contrário. Claro que depois o contrário, por definição, acontece, ou seja, quando já somos ricos, já por definição investimos mais. Mas os governos têm que fazer escolhas para conseguir investir mais em inovação e ciência, para poder desenvolver mais e ter maior riqueza.

Agora, Portugal fez um grande caminho. Portugal, antes da entrada na União Europeia, investia 0,4% do seu produto interno bruto em ciência e inovação, e foi fazendo um caminho muito longo, e hoje é um país que está a meio da tabela.

Há países que investem 4%, como a Finlândia, como a Suécia, como a Dinamarca, e depois há países que investem menos do que Portugal. Mas Portugal tem sido um grande exemplo, durante muitos anos, mas ainda tem um grande caminho à frente, e é esse caminho que temos de continuar a fazer.

Porque, no fundo, os países só podem enriquecer por duas vias. Ou enriquecem e têm uma maior produtividade porque diminuem os salários, e então as pessoas ganham menos e produzem mais por um preço inferior, e não é esse o caminho que a Europa quer. Nunca foi esse o caminho que quisemos. Fomos obrigados a uma determinada altura, porque chegámos a um ponto em que já não conseguíamos fazer doutra maneira. Mas a ideia é que os países na Europa consigam enriquecer através de vender produtos melhores.

Ou seja, se vender um produto mais caro, eu tenho alguém que me quer comprar esse produto mais caro, e ao comprar esse produto mais caro pode ter uma empresa que, ao vender um produto mais caro, pode pagar melhor aos seus trabalhadores. Portanto, a inovação é essa capacidade de subir no valor daquilo que vendemos para poder criar maior riqueza e melhor emprego. Um país que tenha essa sensibilidade de dizer: eu não vou conseguir chegar aos 3%, mas vou fazer aqui escolhas de onde vou investir. Se ele investir mais em inovação e ciência terá, no longo prazo, mais resultados. O problema é que a ciência e inovação têm ciclos de dez anos e os governos têm ciclos de quatro anos. Portanto, um governo que toma essa medida e que diga que vai investir mais naquele setor e depois não investe noutros setores, vai ser eventualmente penalizado, e esses políticos vão dizer: vou agora ser penalizado por algo que só vai ter um resultado daqui a dez anos. Portanto, tem que haver uma visão conjunta do país e das várias forças políticas da importância desse investimento na inovação e na ciência.

E é isso que é também um bocadinho o meu papel, ajudar a que esta ponderação não seja apenas política, mas seja também técnica e económica, de forma a conseguir investir cada vez mais em inovação e ciência para conseguir ter produtos melhores, empresas melhores e melhores salários. Sem isso nós não conseguimos. Porque a outra via é a via a que chegamos quando temos crises, que é dizer: e agora o que fazemos para nos mantermos à tona de água? Temos que reduzir, ou fazer que as pessoas trabalhem mais pelo mesmo preço. Mas isso não é maneira de enriquecer. Isso é maneira de resolver um problema num determinado momento. Mas não é uma maneira de enriquecer, temos que mudar esse espírito.

Portanto, é esse caminho que estava a dizer, porque depois quando os países já são ricos, tudo é mais fácil. Já podem investir por definição, porque têm mais dinheiro. Mas veja-se os casos, por exemplo, da Finlândia, que era um país que só depois dos anos noventa é que começa a investir, mas investiu durante dez anos, não foi uma coisa de um dia para o outro.

Depois os pontos sobre as start-ups e sobre os instrumentos. Nós temos vários instrumentos muito interessantes para as start-ups. Há um instrumento que nós temos no meu programa, que é o PME Instrumentos, chama-se SME Instrument em inglês, (podem ir à internet) é diretamente feito com a Comissão Europeia, enviam uma pequena candidatura com dez páginas a contar qual é o projeto que têm, qual é a ideia que têm – não é bem um business plan , mas é expor a ideia –, e onde conseguem receber, mais ou menos, logo cinquenta mil euros à cabeça, e depois é analisado o business plan , e mais tarde pode chegar até dois milhões e meio, três milhões de euros por cada projeto.

Portugal já tem conseguido alguns desses projetos; conseguiu agora um há pouco tempo na área do Porto, na área dos vinhos, mas há muitos mais desses projetos que se podem conseguir, não só de empresas já existentes, mas de pessoas que estão a formar a sua própria empresa.

Muitas vezes o que é difícil é navegar nos diferentes projetos europeus, e onde é que a pessoa pode ir. Às vezes é quase preciso tirar um curso para saber quais são os projectos que podem ajudar as start-ups portuguesas, porque as pessoas não sabem, não sabem se são fundos estruturais, se é o Horizonte 2020, se é outro tipo de fundo. Tem que haver um ponto de contacto, nós temos aqui em Portugal um a que chamamos ponto de contacto nacional, para que as pessoas se possam informar e saber quais são as ajudas que têm. Mas há muitas ajudas que, muitas vezes, as pessoas nem sabem que existem, e isso é pena.

 
Simão Ribeiro

Robert Neves, Grupo Laranja; prepara Gonçalo Silva, do Grupo Verde.

 
Robert Neves

Antes de mais, gostaria de cumprimentar o nosso excelentíssimo Comissário, Eng.º Carlos Moedas, e os restantes membros da Mesa, e desde já agradecer a atenção e o trabalho inexcedíveis de toda a equipa da Universidade de Verão ao longo da semana.

Aqui há cerca de um mês, num programa, creio que da SIC Notícias, pude constatar que, no Reino Unido, em média, um merceeiro ou um padeiro, têm uma carga fiscal quatro vezes superior às grandes corporações, se compararmos a escala. Não será a desigualdade fiscal entre o cidadão comum e estas grandes corporações a causa subjacente ao surgimento recente dos nacionalismos e extremismos pela Europa fora?

E na sequência desta questão, será possível alcançar uma verdadeira uniformidade fiscal a nível dos vinte e oito, ou dos vinte e sete, tendo em conta os acontecimentos do mês de junho?

E quanto ao tema a que esteve subordinada a sua intervenção, a Europa digital, tendo em conta as desigualdades estruturais existentes nos vinte e oito, essa Europa digital poderá ser concretizada? Qual será o hiato temporal em que se pode concretizar verdadeiramente a Europa digital?
Obrigado.

 
Gonçalo Silva

Antes de mais, bom dia a todos. Senhor engenheiro, as minhas duas perguntas vêm no sentido daquela que foi a reflexão com que iniciou a sua exposição, a propósito do sentimento europeísta. E eu gostava de lhe perguntar, em primeiro lugar, se um maior sentimento de pertença à União Europeia não acarreta necessariamente uma reforma profunda do sistema político que está em vigência na União.

E em segundo lugar, se os mecanismos constitucionalmente criados que hoje permitem à Assembleia da República intervir em alguns processos de decisão ao nível da União Europeia, não são insuficientes?

 
Carlos Moedas

Começar aqui pelos impostos do padeiro, ali atrás.

Eu penso que, sem dúvida, esse é um dos pontos que cria essa angústia e essa revolta. E isso foi uma das provas da decisão que foi tomada ontem em relação a Apple. É que há uma perceção – perceção e realidade, também – que muitas das grandes corporações, das grandes empresas, podem simplesmente criar estruturas em que praticamente não pagam impostos. E o homem da rua, a mulher da rua, paga muito mais impostos do que estas corporações. E isso tem criado, realmente, essa desigualdade e depois essa revolta.

Agora, é natural que os países encontrem sistemas para atrair as empresas para virem para os países deles. Mas tem de ser feito dentro do patamar da igualdade. Por exemplo, nesta decisão da Apple, a Comissão não critica que a Irlanda tenha uma taxa de imposto que seja de 12,5%. O problema é que a Apple não pagava 12,5%, nem 10%, pagava menos de 1%. É dessa diferença que estamos aqui a falar. E isso realmente cria um grande sentimento de injustiça e é algo que tem que ser cada vez mais explorado, e mais tratado.

Eu diria que é um dos pontos essenciais na agenda da Europa, a transparência fiscal e depois essa justiça fiscal. E enquanto isso não se conseguir as pessoas vão sempre sentir-se revoltadas, o que, até agora… as pessoas tinham isso no ar mas não tinham ainda digerido. E hoje as pessoas digerem essa atitude e dizem "isto não é possível”.

Como sabe, tudo o que tem a ver com impostos é uma responsabilidade nacional. Aquilo que acontece aqui nesta decisão da Apple, foi uma decisão do chamado "auxílio de Estado”, portanto, foi uma decisão da concorrência. Não foi uma decisão em relação à parte dos impostos. Aquilo que se disse foi: a estrutura que foi criada, e que a Apple tinha criado na Irlanda, era uma estrutura em que tinha uma empresa que não tinha empregados, e que conseguia declarar todo um conjunto de rendimentos e de lucros que eram feitos sem ter empregados. Portanto, era uma empresa que não existia e isso foi considerado auxílio de Estado, mas não foi na capacidade de decidir sobre os impostos porque a Europa não tem essa responsabilidade.

E depois fez-me qualquer coisa sobre a parte digital, que era como é que a parte digital podia ajudar exatamente neste ponto dos impostos. Foi isso?
 
Robert Neves

Mais a questão se, tendo em conta as desigualdades estruturais existentes nos vinte e oito Estados-Membros, quanto tempo é que levaria a concretizar verdadeiramente essa Europa digital, no seu todo?

 
Carlos Moedas

Eu espero que seja algo que seja feito durante estes cinco anos que estamos aqui a construir. E muito já foi feito, e muito está a ser avançado. Se nós conseguirmos, como conseguimos – demorou muito tempo -, mas acabar, por exemplo, com o roaming, de conseguir acabar até 2019 com tudo o que é o geoblocking , conseguir criar estas estruturas em que as pessoas podem comprar e vender na Europa sem ter barreiras, isso já vai ser a criação dessa Europa digital. Nunca ficará completa, vai sempre demorar tempo e vai sempre demorar anos até chegarmos àquilo que será a realidade. Mas a legislação, a parte legislativa, eu penso que será feita durante este mandato da Comissão.

E depois era uma pergunta mais difícil sobre a reforma do sistema político na Europa. É difícil dizer, ou é difícil pensar, é um bocadinho aquilo que o Van Rompuy dizia, ou seja, o preço a pagar pela paz, porque, no fundo, se nós olharmos, a Europa esteve sempre em guerra, sempre em guerra.

Eu estava, no outro dia, no Estado de Baden-Wurtemberg, que é no sul da Alemanha, a colar com a Áustria e com a Suíça, em que me contavam que é um Estado que esteve sempre em guerra, esteve em guerra com os outros Landers alemães, esteve em guerra com França, a própria História de Estrasburgo.

Portanto, a Europa foi guerras atrás de guerras. E o sistema político que se encontrou criou essa paz. Mas é um sistema complexo, e esse sistema complexo vai ter que ser mudado lentamente, porque neste momento não há condições para mudar aquele que é o Tratado de Lisboa. Portanto, não mudando os tratados, não vale a pena estarmos a discutir o que é que poderia ser mudado, porque não vai ser mudado neste momento.

Mas deve ser pensado para o futuro como é que podemos ter decisões e sistemas de decisões mais simples. E sobretudo numa Europa que já é a vinte oito e que poderá crescer, e portanto se a Europa crescer de vinte e oito para trinta ou para trinta e dois, ou para o que seja, vai ter de criar aqui sistemas de decisão mais simples, porque senão não vamos conseguir tomar essas decisões.

E decisões que façam essa ligação, que depois também falou, à parte das assembleias nacionais; e como é que essa relação entre a assembleia nacional de cada país é com a Europa. E hoje em dia isso acontece e todos os instrumentos são hoje possíveis. Ou seja, uma assembleia nacional, seja portuguesa ou seja de outro país, pode juntar-se com outras e parar uma determinada legislação. Portanto, o poder e a legitimidade democrática estão aí. As assembleias parlamentares podem travar hoje determinados actos legislativos.

Portanto, vai ser esse conjunto, esse trabalho entre as assembleias de cada país, e o Parlamento Europeu, e o Conselho, e a Comissão, que nos pode levar mais longe, mas vai demorar tempo. Agora, eu não acredito em reformas profundas. Acredito em reformas, pequenas mudanças que podem ir melhorando, por exemplo, o que é o sistema da codecisão, o que são os trílogos, como é que as pessoas decidem, e tudo isso, pelo menos para que os europeus percebam aquilo que se está a fazer.

 
Simão Ribeiro

Muito obrigado. Último bloco de questões: Eduardo Magalhães, do Grupo Encarnado, prepara Marcelo Morgado, do Grupo Castanho.

 
Eduardo Magalhães

Antes de mais, queria agradecer ao Eng.º Carlos Moedas por estar aqui connosco hoje e pela palestra que nos deu.

Foi dito no início que o período mais globalizado da História tinha sido o período pré 1914, pré Primeira Guerra Mundial, e isto aconteceu efetivamente no auge do capitalismo, graças sobretudo a tratados como o Cobden–Chevalier, de 1860, que, posteriormente, com o estatuto de nação mais favorecida, alargou os acordos bilaterais entre vários países.

Este período da História da paz dos cem anos foi conseguido por equilíbrio de vários fatores. Em termos políticos, a nível global, pelo equilíbrio de poder que havia entre as forças dos Estados, forças nomeadamente militares. E a nível nacional pela existência de um Estado liberal que foi reformado posteriormente.

A nível económico havia sim, a nível global, um padrão-ouro, e um mercado autorregulável a nível nacional.

E só pela conjugação destas quatro condições se conseguiu fazer toda esta globalização a nível global. Posteriormente aconteceram choques sistémicos que introduziram mudanças no mundo que, a meu ver, não mais poderão ser retrocedidas.

E se atualmente se pretende na Europa, nomeadamente dentro da Europa, um não equilíbrio de poder, mas antes uma aproximação do Estado, nomeadamente através da criação de um sentimento europeu, a eliminação de sentimentos nacionalistas; se faz sentido pensar em criar na União Europeia uma União Federal, ou seja, passarmos a ser os Estados Unidos da Europa com que Wiston Churchill sonhou no pós Segunda Guerra Mundial.

Se concorda que, isto sim, seria um caminho viável para o futuro e se concorda que seria possível isto sobreviver, de certa forma, aos sentimentos de perda de identidade por parte de alguns povos. Porque sabemos que sim, que o continente europeu é dos continentes mais nacionalistas que há e com mais medo de perda de identidade.

Muito obrigado.

 
Marcelo Morgado

Bom dia a todos. Senhor Comissário, gostaria de colocar a seguinte questão: nesta época digital, onde a informação circula a uma velocidade gigante, com os atuais perigos que os países europeus vivem da possibilidade de terrorismo, não defende novas políticas de restrição à informação? Recordamos todos os aqui presentes que alguns jovens foram encorajados através das novas tecnologias a juntarem-se àqueles grupos de terrorismo.

É esta a questão que eu lhe quero fazer. Muito obrigado.

 
Carlos Moedas

Começando aqui pela parte da História que aquele nosso amigo trouxe, e muito bem colocada essa questão sobre a parte histórica. Eu acho que é isso que nós temos que lutar no futuro: não podemos deixar que aconteça como antes de 1914, em que de repente temos uma Europa que não consegue ajudar na distribuição dessa riqueza, e que não consegue manter esse pilar social. Portanto, a Europa tem que ser o garante… e tem que ser vista pelos europeus, não como algo de punição, ou algo que está ali sempre a punir, ou uma entidade que está sempre zangada, mas como uma entidade que seja um recurso para os proteger. E essa proteção pode vir exatamente de a Europa ser vista como a entidade que ajuda a essa equidade social e que consegue passar da globalização, no seu sentido de crescimento de riqueza, mas para a distribuição da riqueza.

E aquilo que foi anunciado ontem pela Apple é exatamente isso - os cidadãos, pela primeira vez, olham e dizem: a Europa está a defender-nos. Obviamente todos nós ficamos muito contentes que a Apple venda muitos iphones , mas que tenha, realmente, equidade e igualdade fiscal na Europa. E são atitudes desse tipo que podem criar e colmatar um ataque pela extrema-esquerda de dizer que a Europa é apenas neoliberal, e que a Europa é uma Europa neoliberal. Eu desde que estou na Europa não tenho visto isso e não reconheço que haja, de todo, uma Europa neoliberal. Existe uma Europa que quer defender os mais desfavorecidos.

Mas depois vem o sentimento da identidade nacional. E esse sentimento, que está a ser explorado pela Marine Le Pen, pelo Nigel Farage e por outros piores – porque há muitos que a pessoa não vê mas que são tão maus como eles –, é um sentimento dramático, que é o sentimento de pensar que se está aqui a criar na ideia das pessoas que, se elas mantiverem a sua identidade nacional e se fecharem, que vão conseguir ter uma vida melhor.

E é essa capacidade que nós vamos ter ou não de dar a volta e dizer: não, não vão ter uma vida melhor.

Essa identidade é importante para cada um de nós, a identidade nacional deve ser conservada, mas não é ela que nos vai trazer uma vida melhor. A identidade nacional é aquela que nos vai trazer um espírito cultural diferente, de assumirmos a nossa culturalidade, e que na Europa é muito rica. Porque se, na Europa, nós tivéssemos essa partilha de tudo o que é cultural, da mesma maneira que temos, por exemplo, nos Estados Unidos, que é um país, no fundo, mais homogéneo. Muito mais homogéneo em país, e obviamente é um país e nós não somos um país na Europa.

Se nós conseguirmos aproveitar essa diversidade cultural para alavancar aquilo que são os nossos produtos, ganhamos muito com isso, mas não precisamos de perder essa identidade nacional. Não é por eu ser europeu que deixo de ser português e não é por ser português que deixo de ser europeu. Acho que ser europeu faz parte de ser português e ser português faz parte de ser europeu.

E portanto temos que lutar contra esse populismo. São esses os grandes desafios da Europa, que não são fáceis porque cada vez há mais pessoas que acreditam nessa miragem. Eu costumo dizer que muitas dessas pessoas que votam nos partidos extremistas, não votam porque são extremistas. Votam porque estão cansados, estão cansados de que os próprios políticos do centro não falem claro. Falam sempre na defensiva, com palavra sempre muito estudadas, para não dizer aquilo que não deve ser dito.

E aquilo que nós precisamos é de políticos que falam ao centro mas que falam claro. E que dizem, por exemplo, que se um país faz parte da Europa, obviamente que ele fez um trade-off , fez uma escolha entre a sua soberania, entre mais soberania nacional ou conseguir ter uma maior soberania global por fazer parte do grupo.

No fundo, o que é a escolha que é feita? É um bocadinho a escolha em que nós ou queremos ter maior eficiência e ganhos de escala, mas para isso não podemos ter todas as nossas preferências. É como partilhar um apartamento. Se eu for viver com alguém para um apartamento, eu pago menos de renda, mas não posso decidir tudo o que se faz naquele apartamento. Portanto, a Europa são um conjunto de inquilinos em que, pelos ganhos de escala, criamos maior riqueza, mas podemos, através de diminuir essa nossa chamada soberania nacional, aumentar a nossa soberania global.

E depois tínhamos aqui a pergunta sobre o digital. Podia-me só relembrar qual era o âmago da sua questão?

 
Marcelo Morgado

A minha questão, penso que é a seguinte (penso não, tenho a certeza): visto que a informação circula a uma grande velocidade, e como todos nós aqui sabemos que os grupos terroristas, nos últimos tempos, têm feito uma grande publicidade junto dos mais jovens para se juntarem àqueles grupos…

 
Carlos Moedas

Muito bem. Esse era o exemplo que eu estava a dar que nós vamos ter que criar condições para que isso não aconteça. A minha colega da justiça quis, e está a criar uma maneira, para que não possa haver nenhum tipo de discurso de ódio no meio das redes sociais. E tem sido atacada por vários países, com ameaças de pessoas que dizem, e de próprios jornalistas que dizem: mas isso é contra a liberdade de expressão.

Eu acho que há um limite entre a liberdade de expressão e o ódio de dizer na internet, constantemente, de mandar pessoas matar outras pessoas, de intolerância religiosa. Eu acho que isso não é liberdade de expressão, isso é racismo, é xenofobia, e a Europa não pode permitir isso.

Portanto, temos que ser muito, muito, muito restritivos nessa ideia de que ninguém pode cometer crimes racistas contra outras religiões, contra outras pessoas, e incitar a essa violência na internet, porque isso não pode ser, não é aceitável na Europa em que vivemos e nos valores que temos. Portanto, temos que ter uma capacidade muito forte, como Europa, de não deixar que isso aconteça.

Agora, não podemos entrar numa espiral em que, de repente, proibimos tudo. Agora temos que decidir muito o que é que temos que proibir. Violência, intolerância religiosa, para mim, não são liberdade de expressão, são racismo. E, portanto, o racismo deve ser proibido.

 
Dep.Carlos Coelho

Eu peço aos conselheiros para assumirem as suas funções aqui junto ao Duarte. O Simão e eu vamos acompanhar o nosso convidado à saída.

Em nome de todos quero agradecer ao Comissário Carlos Moedas a espetacular intervenção e as respostas que nos deu, não apenas com grande atualidade, mas também com grande profundidade pedagógica.

Muito e muito obrigado.

[Aplausos]
 
Duarte Marques

Muito bem. Bom dia a todos. Vamos fazer as votações. Recordo que estamos a avaliar a utilidade desta aula, desta conferência. Pedia a todos que preparassem o voto. Vamos começar, como habitualmente, pela fila da frente. Estão todos preparados?

Fila da frente, pode votar.

Muito bem, podem baixar. Segunda fila.

Muito obrigado, podem baixar. Terceira fila. Levantem bem, quanto mais para trás pior nós vemos.

Podem baixar, obrigado. Fila seguinte, levantem o braço.

Podem baixar, obrigado. Fila seguinte.

Obrigado, podem baixar. Fila seguinte, última fila.

Podem baixar, obrigado.

 
Nuno Matias

Muito bom dia a todos. Nós temos aqui umas peças de puzzle para cada um dos grupos para, agora durante a hora do almoço, colocarem basicamente as medidas que se propõem nos trabalhos, para que depois possam ser colocados nos placards durante a apresentação dos trabalhos de grupo. Portanto, só têm que colocar, resumidamente, quais são as prioridades e quais são as medidas.

A lógica das duas peças do puzzle é que numa peça colocam as prioridades, na outra colocam as medidas. Correto?